O monstro da noite – parte II

…continuação da história narrada no post anteior…

II

            O psicólogo depôs os papéis de lado e olhou para seu paciente. Um homem gordo, de óculos e começando a ficar calvo, na casa dos trinta anos, mas aparentando mais. Um rosto aflito e nervoso – já tentara o suicídio uma vez, embora, na visão do terapeuta, fora mais um pedido de socorro e uma tentativa de chamar atenção. Era um homenzinho solteiro, frustrado e sem perspectiva, igual a tantos outros, mas com menos força do que a maioria, ou talvez nem isso, apenas uma consciência mais desenvolvida e uma percepção mais objetiva de quem ele era. Que lhe seria de muito valor, se fosse possível enxergar alguma qualidade em si mesmo.

-Como você achou estes papéis, Cláudio?

-Na minha casa nova… pertencia ao homem que contou essa história. Comprei barato por causa disso, depois que ele apareceu nos jornais, há um mês.

-Você sabe o que aquele ex-policial fez, não sabe?

-Sei o que apareceu na TV… dizem que ele torturou, estuprou e matou a esposa e a filha dentro de sua própria casa. Depois deu um tiro na cabeça e… bem… tem aquele papel que ele deixou. Uma folha que ele encheu com a frase “Perdão, é tudo culpa minha” repetida umas cem vezes, antes de se matar.

-E o que você acha disso tudo?

-O que eu acho? Que importância tem isso? O homem pode ser inocente e o assassino ainda pode estar agindo… isso não é mais importante?

-Cláudio, aqui, neste consultório, só existe uma pessoa que importa, que neste dia da semana e neste horário é você. Não faz diferença o que acontece lá fora, só o que você pensa ou sente a respeito do que acontece. A gente precisa se concentrar nisso.

-Eu penso que o Victor armou pra ele, então. Eu sei o que você diria… que ele sofria de… ãhn… dupla personalidade, esquizofrenia, sei lá o nome que se dá… e que matou todas aquelas pessoas e inventou a história pra culpar alguém que nunca existiu. Sei que a máscara e a capa foram encontradas na casa dele, junto com corda, um vidro novo de clorofórmio e a faca. E sei que, quando ele se mudou pra outra cidade, aconteceu mais um ataque do Monstro da Noite, só que no mesmo lugar onde ele foi morar. Mas eu sei que o Victor armou pra ele. Eu sei. Ele não inventou essa história!

O psicólogo olhou para a pilha de papéis. O que iria dizer em seguida iria trair um pouco da ética médica e do sigilo que deveria manter sobre os outros pacientes, mas era necessário que Cláudio soubesse a verdade. Isso o salvaria da paranóia em que estava prestes a mergulhar. Além do fato de que, em parte, ele já sabia.

-Eu sei que ele não inventou, Cláudio. Porque eu conheci essa pessoa de que ele fala.

A palidez de Cláudio ficou quase sobrenatural.

-A história que ele conta é verdadeira, porque eu a ouvi dos lábios do próprio assassino, que foi meu paciente há três anos, quando ele voltou para essa cidade. Eu conheci Victor e posso assegurar que ele não matou mais ninguém.

-Você ficou louco, doutor? Não contou aquilo pra ninguém?

-Eu não devo revelar o que escuto por aqui. Os pacientes perderiam a confiança e todo o  meu trabalho seria desperdiçado. E é um trabalho que ajuda a evitar mortes.

-Mas está me contando agora!!

Ele havia se levantado, suava e ficava vermelho. O terapeuta decidiu ser brusco. O choque deveria acalmá-lo.

-Victor se matou faz quase três anos, logo depois que o tratamento começou.

Cláudio desabou na cadeira feito um pacote, a palidez voltando quase instantaneamente.

-Ainda vivia com os pais e eles me culparam e ameaçaram me processar, então nunca fiquei sabendo dos detalhes. Mas acompanhei o funeral à distância e vi o nome dele no obituário… isso foi bem antes do caso do Monstro da Noite e…

Interrompeu o que dizia. O pobre homem afundara o rosto nas mãos e começara a soluçar enquanto as lágrimas escorriam entre seus dedos. O terapeuta se levantou e se curvou sobre ele. Tocou de leve seu ombro e disse:

-Calma, rapaz, está tudo bem… Eu teria pensado a mesma coisa, se não soubesse, mas Victor já estava morto muito antes. Eu queria que você entendesse uma coisa…

Mais calmo, esfregando o rosto, Cláudio virou os olhos para ele.

-O erro daquele policial, do verdadeiro assassino, pode muito bem ter sido dar importância demais pra essa história trágica. Nós sabemos o quanto você é emocionamente sensível, Cláudio, e deve tomar cuidado com isso, também. Não queremos que…

O homenzinho gordo se levantou e empurrou o doutor de forma tão brusca que ele caiu de costas no tapete de do consultório. E lá estava aquele homenzinho ridículo, careca, baixinho e atarracado em pé diante do psicólogo bem sucedido e bem apessoado, alto e atraente, cuspindo fogo com palavra e deixando uma pessoa que todos considerariam superior a ele com bastante medo.

-Seu cretino! Acha que é comigo que eu estou preocupado?

Cautelosamente, o outro foi se levantando.

-Eu sei que eu não valho bosta nenhuma…

-Nós sabemos que isso não é verdade.

-Cala a boca e me escuta! Eu não estou me queixando, só estou tentando te explicar, seu burro! Burro e convencido! Um diploma não é atestado de divindade, sabia?

Houve um silêncio tenso, o psicólogo se sentou, tentando não demonstrar abalo, e o outro prosseguiu, ainda em pé:

-Eu sei que Victor morreu. E sei mais do que você. Conversei com os pais dele e descobri como… ele morreu no seu quarto. Havia colocado a cama em pé sobre a janela, pra liberar o espaço no chão e impedir que alguém entrasse quando ele estivesse agindo. Quando arrombaram a janela, ele estava nu, deitado no chão com os braços e pernas abertos… e pintado abaixo dele estava um pentagrama, acompanhando a posição do corpo… ele tinha um punhal estranho e havia cortado a própria barriga e depois ainda tido força de vontade o suficinte para enterrar no peito e abrir os braços pra morrer na posição certa… ao redor dele estavam vários livros de magia negra. Que são bem fáceis até de se achar hoje em dia! Claro que nem todo o mundo tem o talento dele…

-Continue, por favor, eu quero ver onde você quer chegar.

-Isso não era tudo, meu amigo. Ele tinha também subido num banquinho e pintado no teto a frase “Viverei para sempre com o sangue daqueles que sabem meu segredo”. Um gravador do lado dele ainda repetia baixinho esta mesma frase que ele gravou nos dois lados de uma fita umas mil vezes…

-Bem, e o que tudo isso significa pra você?

-Significa que ele viveu depois da morte… com o sangue dos que sabiam de seu segredo.

-Como um vampiro?

Finalmente, o homem se acalmou e sentou.

-Não como o vampiro que você está imaginando. Ele roubava sangue… mas não literalmente.

-Não entendo o que quer dizer. Poderia me explicar, por favor?

-Sangue é vida.

A força daquela frase varreu a sala, e o doutor ficou desconcertado com o fato de que ela parecia mais escura agora. Cláudio prosseguiu.

-O policial sabia do segredo dele, mas pensava que ele estava vivo… vivo como nós, eu quero dizer. Nem sei se chegou a entender o que realmente estava acontecendo. Talvez tenha atirado na cabeça acreditando que, durante um sono longo e sem sonhos, Victor havia chegado fisicamente ali e matado a esposa e a filha… e se culpou por ter revelado a história. Foi uma culpa bem suave… perto da que ele teria se soubesse realmente o que estava acontecendo.

-Mas, Cláudio, o que tudo isto tem a ver com você?

O homenzinho sorriu. O sorriso de um condenado conformado.

-Ontem eu estava escovando os dentes e, depois de cuspir a pasta na pia e levantar para me olhar no espelho… eu vi um rosto que não era o meu.

Se levantou e se dirigiu à porta.

-Eu vou me matar essa noite, doutor. E ninguém vai conseguir me impedir. Vou ir criando coragem até lá… e só estou te contando isso porque você é um homem bom, e tem que saber que não merecia essa desgraça. Seja forte.

Abriu a porta e escorregou para o corredor.

O psicólogo ficou parado por um minuto, pensando no que fazer, em seguida se levantou e foi até o telefone. Discou para o serviço de saúde pública da cidade:

-Boa tarde, doutor.

-Alô? Vou ser breve… sou psicólogo e acredito que um paciente meu vai tentar o suicídio hoje. Ele tem que ser internado para seu próprio bem. Posso dar o endereço e o nome, se me garantirem que ele só saberá que fui eu que acionou vocês depois que o tiver transferido para uma clínica particular. Ei… do que você me chamou?

-Deixe o Cláudio. Você tem seus próprios problemas. Olhe para trás.

Seguiu-se um clique e ruído de ligação fora do ar. Um arrepio paralisante percorreu o corpo do homem. O consultório tinha uma decoração antiquada, e isso incluia um grande espelho que cobria toda a parede da entrada, ficando às costas da poltrona do paciente. Para falar ao telefone, também dava-se as costas ao espelho.

Cautelosamente, mas com o coração acelerado, ele virou-se.

As roupas eram as suas, mas o rosto era o de um rapaz ruivo e feio que ele conhecia muito bem, e nunca lhe saíra da memória, imitando sua cara de espanto. O doutor teria gritado, mas decobriu que não conseguia mais se mexer.

A imagem no espelho pareceu ficar mais próxima. E ele descobriu que o telefone estava agora dois passos atrás dele e que ele se achave em pé, diante do espelho, imitando a posição da coisa.

A coisa se aproximou mais, de novo sem que ele a visse de fato se mover. Mas percebeu que ambos estavam agora a uma distância de um braço do espelho.

Então a coisa ergueu o seu braço, mas desta vez o doutor não o imitou. Permaneceu imóvel do seu lado. E o braço da coisa se esticou na direção dele e atravessou a fina película que os separava, sem, no entanto, rompê-la.

A medida que, paralisado, mas plenamente consciente, ele viu o braço cruzar a barreira, viu que ele se tornava diferente. A mão não era mais a sua, era uma mão seca e esbranquiçada, como a de uma múmia sem as faixas e polvilhada de farinha, e a parte que cruzara saía nua dali, com a manga de seu paletó cortada pela metade na linha entre os mundos.

Entre o seu… e o dele.

Ele inclinou-se para frente e mergulhou a cabeça, que saiu coberta por um capuz negro sob o qual havia um rosto cuja palidez era mais do que cadáverica. Uma palidez de uma coisa permanentemente morta, e que permaneceria morta sem jamais ser devorada pela terra para se transformar em algo melhor. Uma brancura asséptica e cegante, rompida apenas pela vermelhidão chamejante dos cabelos sobre aquele rosto.

Um rosto de ódio, dor e prazer sem limites, de hedionda imortalidade.

Que abriu sua boca colossal, além da qual só havia escuridão. Uma escuridão que cobriu totalmente os olhos do doutor.

E depois ele não viu nem soube de mais nada.

III

O doutor acordou gritando, ainda com a lembrança nítida da visão.

Alguém acordou junto, emitindo um gemido breve de susto.

Era sua esposa, que dormia ao seu lado na cama do casal, acordando sobressaltada.

-Oi, amor… – resmungou ela, sonolenta, ao seu lado, refazendo-se do susto – Teve um pesadelo?

-Acho que sim… que horas são?

-Não sei… fui deitar cedo, não te vi chegar… você disse que ia demorar…

-Eu disse?

Olhou para o lado. Ela adormecera de novo.

Haviam se casado não fazia cinco anos ainda. Eram os dois jovens e ela era muito bonita, além de doce e confiável. Não tinham filhos. De repente, sem entender por que, ele temeu por ela.

Talvez fosse o fato de que, estando plenamente desperto e a observando adormecida ele tenha percebido o quanto ela era preciosa e vulnerável, tão preciosa e vulnerável quanto a própria vida… e confiava cegamente nele. Se ele fosse outro tipo de homem, já teria abusado desta confiança. Talvez para transformá-la em medo.

Levantou-se, sabendo-se incapaz de dormir novamente, e caminhou até o banheiro na porta ao lado, tentando imaginar o significado daquele pesadelo. Acendeu a luz e, um instante antes que ela viesse, percebeu que não lembrava como voltara para a casa depois de…

Depois do quê?

No banheiro grande e limpo, inundado de luz branca refletida pelos ladrilhos azuis, ele viu o espelho refletir o seu próprio corpo sem alterações, desta vez… mas o horror foi muito pior. Suas mãos estavam cobertas de sangue seco, assim como havia manchas e respingos em outras partes de sua pele nua. No espelho, riscado com o batom de sua esposa, estava uma mensagem prefeitamente legível.

NÃO FAZ DIFERENÇA SE VOCÊ ACREDITA,

MAS VOCÊ SABE, ENTÃO PIOR PRA VOCÊ.

            A caligrafia não era a sua e nem a dela.

E sobre o balcão da pia estava embolado um tecido preto e leve. Dava para ver a máscara de pano branco ao lado, recém-cortada sob medida para a sua cabeça e o cabo da faca suja de sangue emergindo da trouxa negra que ele sabia que, se estendida, seria uma túnica sem mangas e com capuz.

FIM

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O Monstro da Noite – Parte I

I

            Bem, meus amigos, eu deixo este relato aqui, e, em seguida, vou-me embora desta cidade. Alguns poderiam achar que eu sou um covarde, e que deveria enfrentá-lo, mas não pretendo… é arriscado demais, pois, sendo eu o único que sei quem ele realmente é, ele poderia me farejar rapidamente e acabar comigo antes que eu pudesse fazer alguma coisa que fizesse diferença. No entanto, pretendo ir para bem longe, para onde ele não puder me achar, e então, espero que o primeiro que encontrar estes papéis saiba que providência tomar. Pois eu não estaria apenas arriscando meu pescoço… eu tenho uma esposa, como vocês devem saber, e também uma filha que mal acabou de completar quinze anos.

O que posso dizer? Todo mundo conhece a lenda do espírito que assombra esta cidade… que aparece como uma figura usando uma túnica e um capuz negros e cujo rosto é completamente branco. Um número considerável conhece também a história de seu surgimento – um padre de meia-idade, profanamente apaixonado por uma jovem fiel da igreja, que um dia lhe confessa a perda de virgindade com o namorado, o qual confessa a mesma coisa sem conhecimento do que ela fez. Ultrajado e enciumado, o padre ordena, como penitência, que a menina vá até o cemitério à meia-noite, sem dizer a ninguém o que fará, e lá reze continuamente pelo perdão de seus pecados, diante de determinado túmulo, até o amanhecer. Para o jovem, diz que vá ao mesmo túmulo, com rosas e cravos brancos, sozinho, logo antes do sol raiar, para rezar pela alma de uma mulher decaída, igual à que acabou de seduzir e amaldiçoar. O padre vem no meio da noite e surpreende, estupra e mata a menina que inocentemente o obedeceu. Ninguém escuta seus gritos por socorro e seus pedidos de clemência só aumentam a luxúria e a fúria de seu algoz. Depois de morta, ele pendura um laço na árvore mais próxima e aguarda oculto nas sombras. Ao chegar e perceber para quem eram as flores, o rapaz entra em desespero e se enforca no laço que o padre deixou.

O padre vive algum tempo mais, mas começa a ser atormentado pelo espírito dos dois amantes, que o culpam pela tragédia. Desesperado e corroído pelo remorso, ele escreve uma carta testamento – supostamente através da qual a história seria conhecida até hoje – na qual conta tudo e suicida-se com um veneno que empalidece completamente a vítima mesmo antes de morte. Desde então, vaga por aí na figura que todos conhecem.

Ninguém nunca viu a tal carta, e qual dos túmulos antigos do cemitério da cidade marca o local da tragédia é assunto de debate entre meninos aficcionados por lendas urbanas, assim como a própria veracidade dessa história saída de um romance gótico é algo bastante improvável. Mas é uma boa história de se contar. E seria ainda melhor se não houvesse um horrível fundo de verdade em tudo isto. Não estou querendo dizer que a história em si seja verdadeira. Na verdade, não é que haja um fundo de verdade na história, há um fundo de verdade que provém da história…

Como todos sabem, recentemente este lugar começou a ganhar destaque nos noticiários. Há um maníaco à solta, um psicopata diferente dos que estamos acostumados a lidar, que matam por ganância ou orgulho (um problema, a meu ver, muito mais grave do que o ocasional serial killer), ou seja, um desses para os quais matar se tornou uma compulsão. Foram seis vítimas até agora… três mulheres jovens e três homens jovens, seus respectivos companheiros, dois dos quais estavam junto com elas em casa no momento do ataque… o terceiro sobreviveu. Tinha um relacionamento com a vítima, mas não era marido nem moravam juntos, e se atrasara para o encontro a sós com sua companheira, surpreendeu o Monstro da Noite – como é chamado – depois que ele havia acabado de violentar, apunhalar e degolar sua quinta vítima. Tomado de ódio e pesar, cego de dor e de fúria, ele havia atacado sem pensar o homem que escutou assobiando no banheiro ao lado do cadáver que ele encontrou na cama de casal do apartamento.

Talvez o que tenha feito com que seu ataque falhasse – embora ele seja o único sobrevivente até agora – tenha sido o que ele viu. Um homem alto, usando uma enorme capa negra esvoaçante dotada de um capuz. Disse também que o agressor pareceu surpreso com ele – disse pareceu porque ele não tinha rosto. Era apenas uma máscara branca sem feições, com estreitos, mas perfeitamente funcionais, orifícios para os olhos.

Os dois se encararam por um segundo e o maníaco foi mais rápido.

Atacou-o com a mesma arma que matara a mulher e lhe deixou duas perfurações – uma no abdômem e outra no ombro. Talvez pretendesse matá-lo, mas o homem não se entregou facilmente e começou a gritar por socorro, enquanto tentava, ainda assim, detê-lo. Tudo o que o maníaco fez foi se desvencilhar do vingador de sua amada e saltar a janela mais próxima. É o que se acredita, pelo menos, porque o homem perdeu a consciência depois de ser arremessado ao chão e só despertou no hospital três dias depois, para dar uma descrição bem imprecisa dos eventos. Alguns psiquiatras forenses e médicos que o examinaram no hospital aventaram a hipótese de que a imagem fantasmagórica que ele criou para o assassino tenha sido apenas um delírio. Uma alucinação pós-trauma. Uma espécie de lembrança falsa induzida pelo cérebro atordoado depois do evento, talvez para encobrir uma verdade mais terrível – A visão de um amigo? De um conhecido confiável? Quem sabe? – afinal, tudo o que pôde ser comprovado é que o homem foi ferido e ficou inconsciente alguns segundos depois de se deparar com o cadáver de sua companheira violentamente torturada, e que nesse meio tempo ele estava emocionalmente perturbado o suficiente para não ter muita noção do que fazia ou via.

Isso parece ainda mais provável se levarmos em conta que alguém vestido com uma parafernália daquelas – capa, capuz e máscara – seria facilmente identificado nas ruas de uma cidade. Além do fato de que, diferententemente do que ocorre com os vigilantes das histórias em quadrinhos, teria sido muito mais difícil invadir residências alheias usando uma fantasia complicada.

Sem falar que a lenda do padre maldito deveria ter tido óbvia influência no funcionamento de seu inconsciente – era o que diziam os médicos, com bastante procedência.

As quatro vítimas anteriores haviam sido executadas com talento e frieza. Invasão de domicílio no meio da madrugada, em uma casa bem segura e um apartamento no quarto andar. Ninguém viu nem ouviu nada e nem foram cogitadas marcas de arrombamento, mostrando que o sujeito é profissional no que faz. Depois usou clorofórmio para deixar os casais inconscientes e os amarrou, esperando pacientemente até que acordassem – é o que garante o legista – e castrou e matou os homens diante das mulheres, para em seguida se divertir com elas.

Tudo isso nos faz pensar em alguém que passaria desapercebido no meio da rua durante a madrugada, que chamaria pouca atenção. Logo, a hipótese de um vilão encapuzado de histórias infantis é quase ridícula.

Ouvi todas estas teorias junto com meus colegas da polícia, ri da descrição absurda do pobre diabo, apesar de sentir pena o bastante para não fazê-lo diante do mesmo, e concordei com o que os médicos diziam, e juntos advertimos severamente a imprensa de que não fosse dado nenhum crédito e nem publicado nada do que aquele homem havia dito – afinal, isso só iria gerar mais pânico e a perseguição de gente errada por parte dos populares ensandecidos. Se pelo menos uma pessoa, um dos vários vizinhos, por exemplo, que ouviram os gritos de socorro do homem e imediatamente chamaram a polícia e correram a cercar e arrombar a casa, tivesse tido ao menos um vislumbre do sujeito… mas não! Todos disseram a mesma coisa! Ninguém viu absolutamente ninguém que correspondesse à descrição…

Mas a verdade, meus amigos, é que o homem sabia do que falava. Sim, ele foi ferido por um homem vestido exatamente da mesma maneira, que saiu dali sem ninguém notar e que dificilmente será identificado por qualquer um que estava presente na cena. Exatamente como uma aparição, um espírito sombrio e maligno com particular predileção, no prolongamento antinatural e profano de sua existência, por jovens apaixonados.

Sobrenatural?

Escutem minha história, e tirem suas próprias conclusões.

Eu decidi entrar para a polícia apenas depois de terminar o segundo grau e cursar pelo menos dois semestres de uma faculdade qualquer. Mudei o curso para direito no instante seguinte e antes mesmo de concluí-lo comecei como simples guarda até chegar, hoje, ao posto de inspetor. Minha família, abastada e cheia de esperanças, não tardou a me censurar pelo desperdício de meu potencial físico e intelectual numa atividade que, ainda mais no país em que vivemos, é considerada inferior e arriscada. Disseram que eu estaria sujeito à corrupção, a ameaças, a riscos de vida… enfim, a tudo o que sabemos sobre a vida ingrata de um policial. Mais ingrata se ele for honesto.

Companheiros, estou longe de ser um herói, mas tenho lutado pra não cruzar certas linhas. Nunca torturei ninguém, nem cobrei propina na base da porrada ou da ameaça. Uma ou duas vezes interferi no abuso de gente bem mais graúda do que eu, o tipo de gente que é imune à lei, mesmo sabendo que teria que fingir que nada aconteceu quando deveria meter esse tipo de gente, mais que qualquer bandido comum, num buraco bem fundo. Fiz vista grossa para certas coisas, é verdade, mas apenas porque sei que qualquer policial, ainda mais um policial que tenta ser honesto, é vigiado dentro da própria instituição por gente que ele nem desconfia, mas que trabalha para os verdadeiros patrões. E não sou apenas eu que corro o risco, mas também minha filha adolescente e minha mulher. E eu amo as duas.

No entanto, vou ficar bem quieto quanto ao que sei sobre o Monstro da Noite enquanto houver a menor chance de ele imaginar que eu sei quem ele é.

Porque meu desejo de me tornar policial só surgiu após eu desvendar pela primeira vez um crime… cujo autor foi justamente o mesmo monstro, mas pelo menos uma década antes de ele se tornar famoso.

Ele se lembra de mim, eu sei muito bem. E eu dele, o que é pior.

Foi durante a última festa da escola.

Tínhamos uma turma de grandes amigos no final do segundo grau, daquelas tão legais que a gente já meio que sente que nunca mais vai ver de novo. Eu já namorava, naquela época, a guria que acabaria por se tornar minha esposa. Ela era uma estudante brilhante, e hoje está cursando o mestrado de sua faculdade de medicina, concluída quase em tempo recorde. Eu era um dos caras legais do colégio – amigo de todo mundo, ou pelo menos simpático com todos, leal aos companheiros, peça-chave na hora do futebolzinho no pátio e no campeonato entre as turmas e notas nada desprezíveis, sem ser chato ou CDF por causa disso. Não tenho porque ter falsa modéstia quanto a estes pontos. A única coisa que desagradava um pouco meus companheiros de farra era o fato de eu não ser tão propenso a atormentar a vida dos que não eram tão legais como nós. Que, aliás, nunca são poucos. Mas há sempre aqueles que se destacam por sua falta de carisma e dificuldade de sociabilização – os alvos preferidos das piadas e brincadeiras dos colegas. Os saco-de-pancadas oficiais. Eu imagino que seja um porre ser um desses caras… e por causa disso nunca tomei parte em nenhuma peça ou brincadeira humilhante demais. Era simpático com eles como era com todo o mundo, mas evitava intimidade, admito, porque não queria ser identificado com gente que era alvo de zombaria e desprezo.

Fico me perguntando se quem se dedica a isso com afinco na escola tem consciência de como deve ser horrível ser alvo de espezinhamento constante, ou se simplesmente não se importa, porque sabe que as chances de uma conseqüência são remotas. Talvez existam os dois casos, mas até hoje me pergunto qual dos dois se aplicava a Pedrão.

Pedrão era um dos melhores e mais antigos amigos que eu tinha – e eu estive do lado dele naquela festa – mas devo admitir que, para muitas pessoas, ele devia ser objeto de ódio. Pedrão era alto, forte, bonito, de família rica e meio burro. Excelente companheiro, parceiro para aprontar de tudo, do tipo que fica do lado do cara mesmo quando as coisas dão errado… mas isso apenas se você for amigo dele. E você precisa merecer isso. Gente fisicamente fraca, que tem defeitos de fala, magra demais, gorda demais, com peculiaridades físicas muito evidentes, tímida ou inteligente demais não mereciam. Eram seus alvos preferidos. E admito que ele os fazia sofrer.

Além das peças que seu intelecto meio limitado bolavam, muitas vezes ele era o executor físico de idéias sugeridas por outros de como “avacalhar com os caxias”. Ele também sabia ser violento, se não estivesse de bom humor. E a reação ou reclamação mais ostensiva de um caxias deixava ele mau-humorado mesmo… pelo menos aparentemente, o que tinha sido a desculpa para moer mais de um sujeito de pancada e deixar sua permanência no colégio por um fio… fio que era mantido pela grana de seu pai.

Bem…

Aquela festa havia sido especial. As aulas já haviam acabado, e o baile de formatura oficial já havia sido realizado logo após a cerimônia… mas era um baile mais quadrado, onde estavam presentes muitos familiares e, como sobrara dinheiro no caixa do grêmio estudantil das infindáveis rifas e festas promovidas para arrecadar grana, havia sido combinado e aclamado por todos de se realizar uma segunda festa… menos formal, mais descontraída e com a garantia de que só compareceriam pessoas de nossa idade. A idéia de uma festa a fantasia, que não era tão comum na cidade naquela época, foi aceita com entusiasmo.

O momento em que eu me lembro de tudo começar a acontecer com uma rapidez impressionante foi quando eu vi Pedrão, sentado comigo na mesma mesa do salão alugado e fechado, vestido como homem das cavernas e ao lado de sua namorada – uma loirinha linda e frágil chamada Aline, que estava vestida de fadinha – já meio embriagado, olhar para a porta por onde entravam os convidados e murmurar, após interromper um comentário jocoso sobre um dos professores de que nos havíamos livrado, com um súbito tom de inconfundível ódio:

-Como é que ele tem coragem…

A expressão de Aline logo se tornou assustada, e ela pendurou-se no pescoço dele, implorando:

-Amor, por favor, deixa ele em paz… ele não fez nada que justifique tudo isso… e essa história ainda pode acabar mal.

Olhei para a porta curioso e tudo o que vi foi um rosto conhecido de vista, dos tempos do colégio – um garoto chamado Victor.

Estava vestido de soldado americano – alguma coisa pra imitar o Rambo, eu acho, pela faixa vermelha na cabeça, ou algum outro herói de ação famoso nos anos oitenta – mas nada poderia ser tão diferente de um soldado idealizado como ele. Pra começar, o físico de Victor era o de um garnizé… e não era só isso. Ele era incrivelmente feio. Narigudo, cabelos vermelhos e repleto de sardas desde a testa até o pescoço, que era o que normalmente dava pra enxergar de sua pele. Ele vinha com um colete cheio de bolsos também, de modelo militar, que praticamente dançava ao redor de seu tronco esquálido. E naquele dia ele estava ainda mais patético. Tinha o braço direito engessado e um olho roxo, além de um curativo no nariz e a cabeça raspada de um lado para possibilitar os pontos que recebera na pele do crânio.

Era assim que Pedrão tratava quem ousasse desafiá-lo e fosse mais fraco.

No entanto, além das brincadeiras costumeiras, que eu soubesse não havia nenhuma razão especial para que Victor tivesse recebido aquele tratamento VIP. Afinal, ele podia ser um dos deslocados da turma, um dos trouxas, sacos de pancada, panacas, mas não fazia mal pra ninguém. Não tinha extravagâncias, como ficar dando respostas corretas ao professor em voz alta, ou então tirar notas surpreendentemente melhores em provas impossíveis. Era um aluno de desempenho bom – e apenas isso, bom, não espetacular – e tão silencioso quanto possível. Fazia-se até a piada de que seria mudo. A única coisa em que se destacava, embora pouca gente notasse, era nos trabalhos manuais, como desenhos ou esculturas, que iam perdendo a importância com a iminência do fim do ano. Mas alguns mais caridosos ainda se lembravam de certas coisas fantásticas que ele fizera com madeira na oficina de marcenaria, um ano antes.

Quando percebi, Pedrão havia ido buscar mais uma cerveja, e Aline estava sozinha conosco, com um misto de tristeza e angústia… e um pouquinho de sentimento de culpa, acho eu, se não estiver enfeitando demais os fatos, sem notar.

Minha namorada pegou suas mãos e disse, solícita como só amigas sabem ser:

-O que foi, querida? Por que ficou assim?

-Estou com medo de que o Pedro bata no Victor… de novo.

-Fica calma, Aline – disse eu – os dois são homens, e se a coisa passar de um certo limite, eu me meto e seguro ele. O Pedro não vai bater num cara naquele estado.

-Como é que eu vou saber? Foi ele quem deixou ele assim…

-Mesmo? – minha namorada fingia surpresa ante a obviedade – Como isso aconteceu?

-Sabe, quando eu e ele pegamos recuperação – eu sorri intimamente, pois isso era coisa que não acontecia comigo e com minha namorada, eramos ambos inteligentes o bastante para escapar de duas semanas extras de aula quase no verão – o Victor me procurou num recreio…

-Peraí! O Victor pegou recuperação também? – dei um salto.

-Deixa ela continuar!

-Tudo bem, eu sei porque ele acha estranho… nunca tinha acontecido, né? Pois é, ele não pegou, foi o que os professores disseram, mas continuou frequentando lá… pra usar a oficina de artesanato. E aí ele me fez um presente de despedida.

Ela engoliu em seco. Era óbvio que havia muito mais do que companheirismo naquele gesto do garoto. Uma coisa que muita gente custa a perceber é que as meninas feias e os caras ridículos amam com tanta intensidade quanto qualquer pessoa “normal” – e quase sempre com muito mais sofrimento também, já que suas esperanças são pequenas e que normalmente tendem a gostar de pessoas que estão muito acima de seu grau de atratividade. Talvez fosse por isso que os verdadeiros românticos – conforme nos explicava um professor de literatura falando sobre o byronismo no Brasil – fossem uns rapazes magrinhos, pálidos, adoentados e tímidos. A quantidade de paixão reprimida no coração dessas pessoas é avassaladora.

-E que presente foi esse?

-Um coração e uma rosa… a rosa estava meio que cravada no coração, o cabo dela se transformava num tipo de faca, um punhal, eu acho. Ele montou com massa de modelar daquela mais duráveis, usadas em construção, e pintou. Passou a semana fazendo isso… e ficou bem bonito. Só que, quando ele me deu o presente, o Pedrão apareceu e entendeu tudo errado…

Minha cara, o problema é que o Pedrão havia entendido certo demais! Ele apenas devia ter sido um pouquinho mais esperto e deduzido o óbvio – o ruivinho feioso e mudo não era sob nenhum aspecto um rival a sua altura – mas, como sempre, a reação havia sido exagerada. Segundo o que Aline nos contou, ele havia começado a xingar o outro agressivamente, e quando ela tentou dizer que não havia maldade nenhuma no gesto, recebeu uma ordem para ficar quieta – e o triste é que ficou, com medo de que o namorado achasse que ela de alguma forma(?) o traíra com alguém a quem jamais dirigira a palavra.

Victor tentou se explicar e levou um tapa. Depois Pedrão tinha apanhado a escultura e caminhado para fora da escola – já terminara suas provas e sabia que era um risco permanecer ali com o que viria depois.

No meio da rua, diante de toda uma multidão de alunos sedentos de sangue e talvez alguns vampiros mais velhos que espiavam pelas janelas da escola sem coragem o suficiente, ou mesmo vontade, para interferir em qualquer coisa fora da sua aula, o namorado ultrajado havia arremessado a escultura contra os paralelepípedos da calçada e esmigalhado os cacos com os pés. Depois virou para Victor, que o seguira e cujos olhos iam ficando vermelhos de choro e disse, com um sorriso:

-Ups! Que descuido! Toma cuidado pra não perder os brinquedos da próxima vez, tá, bebezinho chorão?

O que aconteceu depois foi inusitado.

Victor avançou em cima dele, com um urro de raiva, e chegou a lhe acertar um primeiro soco no rosto. Por um instante, o adversário recuou surpreso – talvez se o outro tivesse aproveitado a chance para lhe atingir nos “países baixos” ou acertar uma mais forte do lado da orelha as coisas poderiam ter terminado diferente, mas esse tipo de coisa raramente acontece fora das comédias adolescentes no cinema, gente como Victor não está acostumada a brigar e não consegue se deixar levar tão facilmente pela fúria. O que deve ter acontecido é que ele percebeu o absurdo do que fizera e se assustou também, e Pedrão, mas experiente, notou isto – e em seguida avançou. Ninguém da casta de Victor tinha a ousadia de fazer aquilo, e o primeiro que tivera haveria de pagar caro. Depois de apanhar feito um servo desbocado na frente de um lorde, Victor voltara para casa chorando e quase rastejando, sem ser ajudado por ninguém.

Pedrão e Aline tiveram uma discussão feia – na verdade ele gritou muito e ela chorou e ouviu, é o que eu imagino, e sua sorte naquele momento é que, por mais covarde que Pedrão fosse com homens mais fracos, havia algo de sua peculiar honra pessoal que lhe impedia de machucar mulheres. Provavelmente porque elas sempre haviam sido muito mais legais com eles do que com Victor.

No fim, haviam se reconciliado e tudo seguiria seu rumo.

O homem das cavernas voltou mais bem-humorado do que saíra – sua raiva vinha e passava rápido – e começamos a conversar de outras coisas tão logo eu dei o sinal para minha namorada de que ele se aproximava. Estava ainda mais embriagado e trouxera mais bebidas para todos nós.

O papo ficou alegre, mas com aquele quê de tensão que fica no ar quando todos sabem que tem que evitar um assunto. E assim permanecemos por muito tempo.   Finalmente, no meio de uma história divertida que eu contava sobre um vizinho que soltara seus gansos em cima de nós quando tínhamos dez anos e havíamos ido buscar a bola que caíra no terreno dele durante uma partida na rua, a atenção das moças foi subitamente desviada para outra coisa… e eu vi isso assim que seus olhos se viraram para uma sombra que se erguia do nosso lado.

Era uma festa a fantasia, e eu não deveria ter ficado tão impressionado, mas a aparição súbita e silenciosa da figura me roubou a voz da garganta tanto quanto ocorrera com elas.

E de fato lá estava ele. Com uma longa capa de um tecido fino e preto, que terminava num capuz sobre a cabeça, imitando um monge, e o pouco que se via do rosto era branco como papel, provavelmente efeito de uma máscara de pano bem simples, ou então da semi-obscuridade da festa.

Pedrão foi o último a perceber a chegada do estranho, e só o fez pelo nosso silêncio. Todos olhamos para o recém-chegado, pois parecia que ele queria dizer alguma coisa e aguardava a atenção de todos.

No entanto, nada disse, apenas apontou para Pedrão como se fosse a morte escohendo o próximo, com uma mão magra e ressequida, semelhante à de um múmia, saindo de um rasgo da capa do lado direito que era sua manga improvisada e tosca.

Depois disso, a estranha mão se recolheu e seu dono aguardou, em silêncio.

Coisas estranhas levam ao medo, e, para alguns, o medo leva à raiva.

Pedrão se levantou, confuso e irritado, e disse, bruscamente:

-Que que tu quer, cara? Não tá vendo que a gente tá conversando? Vai procurar tua turma!

O gesto do outro foi rápido. Aquele braço cadavérico surgiu novamente e pareceu, aos meus olhos confundidos pelo escuro, desferir um soco no ventre de Pedrão, só que um soco comum não faria ele se dobrar gritando. Somente quando esse primeiro golpe foi concluído é que eu vi a faca que o rasgara de lado a lado surgir erguida novamente na mão da aparição e percebi a merda que estava acontecendo. Levantei-me para fazer alguma coisa, nem sei direito o quê poderia ser feito, àquela altura, mas não pude impedir o segundo golpe, que atingiu meu amigo nas costas e deixou a faca ali.

O estranho virou as costas e correu, eu o persegui esbaforido, acho que eu sabia que minha namorada iria conseguir chamar ajuda para Pedrão a tempo, e que eu só iria piorar as coisas ali junto dele.

O desgraçado era rápido. Dançava em meio à multidão, alguns dos quais percebiam que algo estranho estava acontecendo lá atrás, mas o choque e a surpresa deram-lhe tempo. Além do mais, ninguém realmente viu o estranho apunhalar Pedrão além dos que estavam na mesa com ele.

Quando parecia que eu iria alcançá-lo, ele deu uma guinada súbita e entrou no banheiro dos homens. Entrei atrás. Lá dentro, a porta de uma das divisórias dos sanitários se fechou atrás dele. Não uma qualquer, é claro, mas uma que providencial ou intencionalmente – mais provável a segunda hipótese – ficava logo abaixo de uma entrada para o sótão do salão. Aberta e esperando pelo assassino, que eu fui obrigado a assistir, olhando por cima da porta, saltar sobre o sanitário e sumir lá em cima, enquanto tentava arrombar a entrada com o ombro e gritava por ajuda, chamando a atenção de pessoas que nada compreendiam. Quando finalmente entrei, a última coisa que vi foram seus pés chutando poeira e fragmentos de reboco e cimento do lugar escuro onde estava em cima de meu rosto. Tossi e fiquei momentaneamente cego, e senti braços me segurando.

Me lembro mal de todo o resto. Alguém, acho que um segurança, me conduziu para fora dali, e fui informado de que Pedrão morrera na minha ausência. Mais tarde minha namorada me contaria de que não era uma faca comum: quando ela tentara removê-la, usando os conhecimentos que tinha de primeiros-socorros, o cabo fizera um clique e se soltara, deixando só um pedaço de aço afiado impossível de ser puxado dentro das costas dele. Quando o legista retirou a lâmina, que era bastante longa, disse que nunca vira uma coisa tão bem feita – era repleta de buracos em sua extensão responsáveis por encher a corrente sangüínea de bolhas de ar.

Enquanto eu prestava depoimento com a voz pastosa, meio atordoado, no local do crime, me lembro de minha namorada, com os olhos lacrimosos, perguntar porque eu estava coberto de poeira. Eu contei o que o assassino fizera, que retardara sua fuga, e, removendo meticulosamente as migalhas – tipo de coisa que as mulheres fazem muito bem, mesmo em momentos de estresse violento como aquele – ela me chamou a atenção, meio que sem querer, para um pedacinho do que parecia ser reboco, mas com um formato estranho e grande demais.

Coloquei-o no bolso intuitivamente, e não pensei no assunto por um bom tempo.

Quanto ao assassino, ninguém o viu sair. O sótão foi vasculhado atrás de pistas, mas nem sequer sua fantasia foi encontrada. Apenas uma janela aberta nos fundos do salão e sem digitais visíveis.

Nos dias que se seguiram, eu me lembro do velório, e de Aline inconsolável e amedrontada, como se soubesse o que lhe aconteceria em breve. Aline que era tão frágil e submissa, que desmaiara ao primeiro sinal de sangue na festa. Aline que talvez não amasse Pedrão de uma forma saudável, mas apenas como sinal de sua fraqueza – buscando alguém que a protegesse e a fizesse se sentir segura, mesmo que a própria presença de quem o fazia fosse um perigo a mais.

Aline que, apenas um dia depois de eu finalmente descobrir uma resposta bastante óbvia para o enigma, foi encontrada morta em sua própria cama – três perfurações no tórax e um corte na garganta. Estava amarrada e amordaçada. O assassino usara clorofórmio, mas esperara que ela acordasse depois de presa e em seguida a violentara – usando preservativo, o que aumentava o ódio e o nojo que todos, inclusive eu, sentimos dele – e a matara.

E não pretendo fazer mais nenhum mistério em relação ao autor.

Foi Victor. O frágil rapaz que a havia amado.

Victor, cujo nome completo está no fim deste relato bem como tudo o que sei a respeito dele. Façam bom uso. Eu não me meterei com ele. Eu tenho pesadelos com aquele cara até hoje. Pesadelos tão horríveis que fico quase em pânico só de tentar lembrar, e que nada deste mundo me faria escrever aqui!

            Um rapaz magro, frágil e tímido. Com um senso de vingança cuidadosamente desenvolvido durante uma vida de humilhações e um amor tão grande por uma pessoa inatingível que acabou por ser a gota d’água na bacia já transbordante de sua loucura.

O tipo de amor que se transforma em ódio mais facilmente.

E que fez a bacia transbordar de vez.

A pergunta é como?

            Parece absurdo, né? Afinal…

Ele estava com um braço quebrado, justamente o que desferira o golpe e uma fantasia completamente diferente quando entrou no salão. Além disso, havia a questão da faca, que tinha pelo menos quarenta centímetros somados cabo e lâmina, e que seria notada até mesmo por um segurança de baile cego.

Mas tudo se encaixou quando, um dia depois do funeral, eu fui dar um jeito na minha roupa suja e escorregou da camisa que eu estivera usando como parte de minha fantasia aquele pedacinho peculiar de reboco.

Que não era reboco.

Era gesso. Gesso medicinal, facilmente adquirido em quase qualquer lugar, e facilmente reconhecido pelos fios de gaze dentro dele.

Tudo fez um sentido claro, súbito e surpreendente. Principalmente pela sua simplicidade. Cheguei a ficar tonto com o choque.

Ele tinha apanhado feito um cachorro, isso era o que todos diziam, e provavelmente era verdade, mas nem todo o mundo que apanha tanto assim quebra o braço. Poderia ter quebrado, e ninguém acharia estranho se quebrasse, o que foi seu grande trunfo, mas não quebrara.

Eu consigo imaginar, depois que as lágrimas dele secaram pra sempre enquanto a dor da surra ia passando, o último fiozinho de sanidade se rompendo e ele começando a ver as coisas de uma outra maneira – uma maneira que daria algum sentido a sua vida. Um sentido que ele não desejara a princípio, que lhe exigiria dedicação, firmeza e astúcia, coisas que ninguém acreditava que ele tivesse, mas que o preencheria plenamente, substituindo o que quer que houvesse antes em seus sonhos e motivações.

Algo para apagar a dor permanentemente. Que exigia o rompimento total da compaixão por qualquer pessoa. Que o tornaria imune a humilhações daquele tipo pelo resto da vida. Não sei se ele ficou feliz, o fato é que ele aceitou aquela sua nova condição e nova missão – e a desempenhou muito bem.

A faca, que provavelmente ele mesmo montara, usando sua habilidade e peças de outras ferramentas, podia ser separada do cabo e embalada em sacos plásticos, presos ao braço por fita adesiva ou isolante, com a lâmina embrulhada num trapo, para proteger a pele, e tudo envolto por gazes embebidas com gesso que ainda por cima lhe dariam o álibi perfeito – ou melhor, nem sequer dá pra chamar de álibi, porque ninguém além de mim jamais pensou na possibilidade de ter sido ele.

Quanto a capa e à máscara branca, eu imagino que a primeira era de um desses tecidos tão finos, muito usados no teatro, creio eu, onde o visual é tudo o que importa e onde uma roupa não precisa funcionar como roupa, que ela poderia ser dobrada para caber num dos vários bolsos daquele colete militar. Uma máscara de pano é moleza de esconder. Uma visita ao salão durante o dia, sob um pretexto qualquer, lhe daria a possibilidade de conhecer uma rota de fuga ideal – como a que ele de fato preparara.

Depois, era só ir até o banheiro, quebrar o gesso, montar a faca e sair com a outra fantasia – num banheiro de festa ninguém iria nem notar, e ele deve ter esperado um momento de silêncio e solidão para sair do compartimento em que estava sozinho e atacar.

Aquele braço parecido com o de uma múmia que eu vi era provavelmente efeito de estar há bastante tempo sufocado no calor do verão e dos restos do gesso que o haviam recoberto.

Me lembro que fiquei sentado por um bom tempo, atordoado com a descoberta e pensando se deveria contar para alguém. Decidi tirar a prova primeiro.

Liguei para a escola e disse que era um primo de Victor, disse seu sobrenome e disse que estava com meus pais visitando ele de outra cidade, mas que havíamos perdido o endereço. Por sorte eu me lembrava do nome do colégio onde ele dissera que estudava. Colou.

Rumei para lá e toquei a campainha da pequena, mas bonita e bem construída casa que ele habitava. Ele abriu em pessoa, sem gesso e nem nada do tipo. Olhou nos meus olhos e eu vi que ele sabia. Sabia que eu o havia desmascarado.

Fui logo dizendo:

-Teu braço curou rápido, hem?

Emendei a frase com um soco naquela boca mole e inexpressiva e ele caiu de costas no tapete da própria sala. Avancei disposto a trucidá-lo, e só percebi tarde demais que era um truque.

O tombo fora forjado. Parecera que eu o derrubara, mas na verdade ele apenas se jogara no chão para ficar fora do alcance de um segundo soco e na posição para a resposta: um chute com a sola do tênis que me atingiu bem no meio dos bagos.

A dor se propagou até quase o meu  estômago, eu fiquei com a boca seca, minha visão escureceu e eu caí. Quando voltei a mim, mas ainda sentido dor – uma das piores coisa que existem em ser atingido ali é que a dor prossegue quase inalterada por muito tempo – foi apenas para ver o lenço branco se aproximando de minha boca e sentir aquele cheiro que até hoje me causa náuseas.

Depois foi escuridão.

Acordei no quarto dele, com um trapo enfiado na boca e preso ali por um durex que dava voltas na minha cabeça. Minhas mãos estavam presas juntas por uma junção intrincada de cordas e corrente de bicicleta – cujo cadeado era de combinação e não chave – que me prendia na cabeceira. Meus pés estavam firmemente amarrados nos pés da cama. As janelas estavam fechadas e eu escutava os pais dele no quarto do outro lado. Seu aparelho de som estava ligado no rádio.

Ele olhava para mim sorridente e profundamente divertido.

O que mais me assustou naquele olhar não foi exatamente o ódio e a disposição para fazer mal, ferir e matar, mas sim o total e completo desespero. Por trás do sorriso agora desinibido e do olhar de inteligência diabólica o que se via era uma alma que decidira parar de gritar por socorro e se entregar completamente ao abismo, sem esperança, nem expectativas, nem amor, nem mágoa, nem medo. Ele havia chegado a um ponto em que a própria vida já não valia mais nada – não tinha nada a perder, ou pelo menos pensava assim – já estava condenado e conformado, mas não iria sozinho pro inferno.

Desesepero absoluto… e a conseqüente liberdade.

Ele falava baixo, e junto com o rádio e a minha mordaça, a possibilidade de eu ser ouvido era ridícula.

-Acordou? Que bom! Agora preste atenção. Eu não lhe desejo mal, até hoje você nunca tinha me feito nada e eu vou perdoar aquele soco porque você ainda está muito abalado e acho que nunca vai conseguir entender.

Sentou-se na cama e prosseguiu, com uma calma estranha e assustadora:

-Você não é o mesmo tipo de gente que ele era. Me parece um cara legal, não quero ter que te machucar, sabe? Não ia me fazer bem nenhum, muito menos pra você. Mas acho que, mesmo assim, mesmo querendo muito que você, que é inteligente, como nós bem sabemos, pudesse ver as coisas do mesmo jeito que eu estou vendo agora… mesmo sabendo que se você pudessse, se você conseguisse se colocar no meu lugar, você iria entender… mesmo assim eu sei que você nunca vai querer fazer isso, afinal o preço que se paga é bem alto, né? Não, você não vai me entender e vai sentir muita raiva de mim sempre… o que eu entendo, só que… eu preciso me precaver. Fique quieto! Não vou te matar, calma! É o seguinte, agora eu vou sair e dar uma lição naquela vagabunda da Aline… vou deixar o rádio ligado, passar a chave na porta e sair pela janela… a combinação do cadeado é fácil. Vai testando dos números menores pros maiores que você acha logo, logo. A janela vai estar aberta. Não tenta sair pela porta. Quando meu pai perceber que não sou eu, vai pensar que é ladrão e te dar um tiro…

Ele deu uma risadinha:

-Eu já perdi um primo desse jeito, sabia?

Ficou sem graça, ao notar que ninguém iria rir, e disse:

-Agora uma coisa chata… amanhã você vai saber o que eu fiz com a Aline. Todo mundo vai saber, na verdade, só que, se você abrir a boca ou chegar perto de mim de novo…

Curvou-se sobre mim e encostou a boca no meu ouvido – não suporto que ninguém faça isso comigo até hoje, por causa daquele dia – e disse, sussurrando:

-…eu pego a tua namorada e faço bem pior com ela. Posso até deixar ela viva, mas vou deixar ela parecendo um monstrinho… e você vai olhar pra ela, e saber que a culpa é sua. E eu vou fazer questão de contar pra ela. Antes, durante e depois, pra ela não esquecer e nunca te perdoar.

Assisti ele abrir uma mochila, assobiando a mesma melodia do rádio, e tirar a capa e a máscara de uma gaveta. Acomodar tudo no fundo e colocar depois o vidro de clorofórmio e a corda. Além de uma caixinha de ferramentas – sua chave para a janela dela, é o que creio.

-Sabe… eu tirei a idéia da fantasia daquela história que contam do padre que matou os dois namorados por ciúme da guria e depois se matou… mas eu sempre achei que ela não faz sentido numa coisa… Alguém capaz de fazer uma coisa daquelas não ia ser capaz de ter remorso o suficiente pra se matar.

E pulou para as trevas.

Trabalhei com sofreguidão no cadeado até achar a combinação – 1-2-3 – ele ainda por cima tinha me dado a dica! Dos menores para os maiores! Se eu tivesse prestado atenção iria ter achado bem antes… e talvez desse tempo. So que eu precisei de 123 tentativas até achar a combinação. Será que ele gostaria que eu o parasse?

Mas não deu. Nem pensei em perturbar a família daquele insano. Pulei pela janela sem pestanejar – e descobri que ela terminava num barranquinho considerável. Deslizei no meio de um matagal e perdi muito tempo dando a volta para a rua de cima. Já era noite alta. Não dava tempo de contar pra mais ninguém. Corri pra casa da Aline e só percebi o quanto eu tinha ficado desacordado quando vi o sol nascer no caminho.

Quando cheguei, a polícia e o carro do necrotério já cercavam a casa.

Caí no chão vomitando e nem me lembro como cheguei em casa. Quando finalmente voltei a mim e descobri o que ele tinha feito com Aline, decidi que jamais contaria aquilo para mais ninguém.

O resto da minha vida foi tranqüilo. Raramente pensei naquilo e achei que iria acabar esquecendo, afinal, Victor se mudou dali para uma outra cidade no começo do ano seguinte, para cursar faculdade, é o que eu soube. Mesmo assim admito que meu casamento possa ter sido motivado pelo medo que eu tinha que um dia ele apanhasse a minha atual esposa e eu não estivesse por perto… claro que não foi só isso. Gostávamos muito um do outro e nos damos bem até hoje, mas com certeza isso não foi o único fator.

Que me resta dizer? Me tornei policial e aquilo que é mais elogiado por meus colegas é minha frieza, minha capacidade de não me abalar com quase nada – afinal, depois do que eu passei é como se eu tivesse ficado meio anestesiado… perdido um pouco da sensibilidade para as atrocidades comuns.

E agora Victor voltou.

Só pode ser ele, sem dúvida nenhuma. O traje que ele usa, que desacreditou todo o depoimento do sobrevivente, pode muito bem ser embrulhado e metido dentro de uma pochete, se ele quiser. Acho que provavelmente ele só o veste quando já está dentro da casa e as vítimas amarradas ainda não acordaram. Quanto a sair do local… no terceiro ataque, deve ter sido bem simples se esconder num armário ou num quarto fechado por dentro – era uma casa grande, tinha espaço de sobra – e esperar que a multidão enchesse o local, como normalmente acontece em bairros tranqüilos. Daí, é só se misturar e fingir o mesmo interesse mórbido que todo mundo por um tempo… e depois sumir.

Igual um fantasma… só que mil vezes pior. Feito de carne e armado com uma faca afiada.

E ele está mais louco do que antes. Não dá pra concordar com o que ele faz, não dá pra perdoar ou relevar, eu sei, mas dá pra entender o que ele fez com Pedrão e Aline… uma vingança contra pessoas que, no seu entender, o haviam ferido além do suportável. As coisas têm uma dimensão muito maior quando somos jovens, e a gente se esquece disso quando cresce mais um pouco.

Só que as outras vítimas não têm nenhuma relação com ele – eu chequei tudo quanto pude em segredo e não achei absolutamente nada! Exceto as características de cada casal – juventude e a combinação de um homem fisicamente forte e uma mulher atraente, é o único traço comum.

Talvez ele não tenha muita consciência do que faz… talvez sempre que ele veja alguém que lhe lembra Pedrão e Aline ele comece a, instintivamente, seguir e observar os dois, enquanto sua parte racional bola um plano de como invadir sua casa, sua parte emotiva vai começando a delirar e ele revive a sua tragédia pessoal e se vinga novamente.

Mas ele lembra da mim… é uma coisa que dá pra sentir de forma não-física! Eu penso nele e é como se, no mesmo instante, ele pensasse em mim e lembrasse de que existe alguém que sabe dele…

Eu não quero imaginar ele atacando as duas pessoas que eu mais amo nesse mundo… e vou cair fora desta cidade ontem. Já pedi demissão e não dei maiores explicações… tenho dinheiro o suficiente para começar um negócio pequeno, um mercado, uma garagem de aluguel ou uma videolocadora. Nenhum amigo, meu, da minha mulher ou de minha filha, deve ficar sabendo para onde vou.

A ficha com todos os dados que levantei sobre Victor segue em anexo. Quase todas as informações são do tempo de colégio, saídas do enorme arquivo morto do local onde estudávamos – não investiguei sobre sua situação atual porque ele saberia, eu tenho certeza que saberia se o fizesse. Mas tenho nome completo, tipo sangüíneo, nome do pai, da mãe, ocupação dos dois na época, digitais e descrição.

Façam bom proveito, e podem ficar com todo o crédito – quero mais é que ele nunca saiba que fui eu. Se você está lendo isso, a melhor coisa que faria seria queimar o relato, e, munido apenas com seus dados, pegá-lo de surpresa e pôr um fim nele.

Porque ele não vai parar.

Continua…

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Desolação

Quando dentro de mim sufoca a escuridão,

E o coração pesa-me como ferro,

Só posso dizer que erro,

Enquanto as horas passando vão,

Em não fazer da solidão,

Em caverna escura como minha alma,

Enquanto as horas passando vão,

Único consolo e fonte de calma,

Porque o rancor que me preenche,

A outros também contamina,

E se quero escapar da sina,

De disseminador do mal,

Devo encontrar solução tal:

Enquanto a luz não brilha por dentro,

Recolha-me eu no centro,

De profunda masmorra solitária,

E aguarde até que a ária,

De uma nova estrela interior,

Seja cantada com frescor,

Daquele que de apenas negror,

A alma não mais enche.

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Razão pela qual eu tenho medo do próximo filme do Batman com Christian Bale

Pense no primeiro Batman do Tim Burton, era bom. Pense no segundo, também era… agora pense no terceiro filme da franquia, pelo Joel Schumacher…
Não entendeu ainda? Pense nos dois primeiros X-Men… magníficos, principalmente o segundo. Agora chegamos no terceiro e veja no que a coisa vira. Não é o suficiente? Homem-Aranha I e II, quase perfeitos. Homem Aranha III… difícil imaginar coisa pior. Agora vai o pior exemplo de todos…. Super-Homem dos anos 70… O primeiro, ótimo, o segundo, uma sequencia digna… chega no terceiro e temos lá o Richard Pryor…
O que leva a minha teoria: há uma maldição no número 3 em qualquer franquia de filme de super-herói.

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Drops de Ódio/R.B/O Horror da Livre Expressão/Falta de Senso de Proporção

Isso aí, pessoal, num país onde assassino e estuprador sai da cadeia após cumprir menos da metade da pena, corrupto nunca é condenado, ninguém é investigado por lavar dinheiro do tráfico e mais de vinte anos de ditadura, com direito a sequestros, tortura e execuções clandestinas saem alegremente impunes, vamos começar a mandar as pessoas pra cadeia por fazerem piadas ruins… e ainda tem gente que diz que tem vergonha de ser brasileiro por causa do funk…

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Romance Gótico

I

            -Boa noite, será que eu posso entrar? – disse o estranho.

Lúcia contemplou ele por pelo menos um minuto. Ele lhe parecia estranhamente familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Alguém que a gente vê pela primeira vez e tem a impressão de ter convivido a vida toda.

-O que o senhor deseja?

O rapaz sorriu. E Lúcia se viu assustada por tê-lo chamado de senhor. Porque era só um rapazola – alto, mas sem nada que indicasse um físico de atleta. Feições delicadas e cabelos em profusão desordenada ao redor da cabeça. Cabelos extremamente negros. Um rosto neutro, nem feio, nem bonito, do tipo que se esquece com facilidade. Mas, ao sorrir, tinha todo o encanto do mundo.

O rapaz tocara a campainha que havia do outro lado da grade. Ela estava do lado de dentro, sob a varanda da casa. Apenas uns três metros – e grossas barras de ferro com uma cerca eletrificada sobre elas – os separavam. Era noite, mas ainda não muito tarde.

Vestia um terno escuro e uma camisa de linho branca. Parecia estar vindo ou indo para alguma cerimônia ou festa – um batizado, uma formatura, um casamento – um enterro – mas não se via carro algum por perto.

-É natural que a senhorita fique desconfiada…

-Senhora – corrigiu Lúcia.

Sim. Senhora. Casada aos dezessete anos com um noivo dez anos mais velho. Recém-formado, médico, agora rico e bem-sucedido. E quase um quarentão. Ela, a caminho dos trinta, ainda tinha uma aparência juvenil – principalmente pelo fato de que não podia ter filhos – já fora tomada por estudante algumas vezes. Mas estudantes, em geral, não são casadas. Estudantes não têm um marido frustrado pela impossibilidade de um herdeiro varão geneticamente legítimo com a esposa oficial. Um marido mais ou menos acima da lei – por causa do qual ela já, mais de uma vez, usara óculos escuros à noite e mangas longas no verão.

E talvez o pior de tudo, para ele, fosse que ela continuava bonita. Talvez muito mais do que na época de seu precoce casamento.

-…que a senhora, se faz questão dessa palavra, fique desconfiada, afinal, você não me conhece. Mas seu nome foi indicado.

-Para quê? – a menção horrorizou-a, inexplicavelmente.

-Bem… por meu tio… ele conhecia você. Por acaso não se lembra de um rapaz de sua escola chamado Daniel Ripke?

Uma sombra de uma recordação passou pelo rosto dela – e o sorriso do rapaz se iluminou novamente, e agora ela via o como ele era jovem, um adolescente, provavelmente, e cada vez mais estranhamente familiar – mas esvaneceu-se, e ela abanou a cabeça, tristemente.

O jovem baixou os olhos e suspirou.

-Bem… isso não muda nada. Ele sempre comentou comigo que não era do tipo que seria lembrado depois de um ano… mas ele se lembra de você. Digo, lembrava. Faleceu recentemente.

-Meus pêsames… mas o que eu posso fazer por você?

Ele ergueu os olhos e ela reconheceu a semelhança – muito fugazmente, um vulto, a sombra de uma lembrança, do rosto daquele que dissera ser seu tio, como um aluno da mesma classe, extremamente tímido e solitário, que talvez fosse aquele de quem ela falava.

-Você poderia sair do marco da porta, andar através do jardim e abrir o portão pra mim, e eu poderia lhe explicar melhor um assunto delicado… que fica melhor entre quatro paredes.

Ela se viu abrindo o portão… e em seguida não o fez. Pensou no que o dr. Antônio Donatto faria com ela se soubesse que, às dez horas da noite, ela recebera em sua casa um rapazote com seguramente menos de vinte anos – que, apesar do corpo franzino, deveria ter, como todo o jovem comparado com um homem de meia-idade, uma virilidade invejável, que os preconceitos sociais impediam de exercitar e, assim, de adquirir a única coisa que falta a um adolescente neste campo – a superestimada experiência.

Antônio era experiente no uso do corpo alheio – mas de formas bastante desagradáveis, também.

-Lamento, espero que me entenda, menino, mas meu marido não está e… bom… a cidade não anda tão segura quanto antigamente…

Ela sorriu constrangida – aburdo! Ele é que devia estar constrangido!

Mas não estava.

Ele a olhou com um olhar duro e cruel – no qual estavam misturados revolta, asco e ódio e, direcionado apenas para ela, uma pitada de desprezo.

Lúcia empalideceu. Uma certeza irracional assaltou-a: Ele sabia! Ele sabia o que acontecia debaixo de seu teto! Das surras! Da tortura psicológica! Da humilhação! Da…

Absurdo. Fora uns poucos amigos do círculo do marido – que, como bons médicos, sempre se protegem mutuamente, e, portanto, não diriam nada – ninguém sabia. Porque ela não tinha ninguém com quem conversar. Ficava em casa, dia e noite, noite e dia. Tinha uma empregada para auxiliá-la, mas conhecia a verdadeira função daquela mulherzinha. Vigiá-la. A mulher estava em seu dia quinzenal de folga – provavelmente em algum motel barato com Antônio, pois era bom variar a dieta, é o que todo o médico dizia.

Pensou na empregada morena e em sua própria pele alva e salpicada de sardas e ocasionais equimoses. Em seus cabelos arruivados e lindos olhos verdes às vezes com órbitas arroxeadas. Pensou na empregada morena e de corpo voluptuoso, com olhos também verdes e muito mais jovem que ela. E imaginou – e provavelmente tinha razão! – que o marido devia tratá-la muito melhor do que a ela. Afinal, era só uma profissional – quase um ser humano – ao passo que ela, a esposa perfeita para exibir em eventos sociais, era uma coisa.

Por que ela continuava com ele?

Medo? Apenas medo?

Será que ela esperava ser resgatada por algum tipo de cavaleiro andante?

O jovem ergueu as mãos e encostou-as na grade. Disse então, voltando subitamente com o sorriso aos lábios.

-Então, minha amiga, estou com as mãos bem posicionadas onde você pode ver e, se quiser, posso tirar a roupa e mostrar que não porto arma. Mas você precisa chegar um pouco mais perto. O que eu vou dizer não ficaria bem em voz muito alta. Tem a ver com o meu tio e o que ele sentia por você.

Ela riu – era uma maneira estranha de falar para alguém tão jovem – e, sem nem pensar, caminhou em sua direção. Ele era estranhamente atraente. A sensação era a de ter piscado os olhos e, ao abrí-los, estar diante dele.

-O que acontece, senhorita Lumpczeck – era seu nome de solteira, mas ela não retrucou desta vez – é que meu tio era apaixonado por você durante o colégio. Na época, não teve chance de se declarar… ou, melhor dizendo, não teve coragem. Depois que terminou a faculdade, ele fez bons negócios e enriqueceu. Ele está podre de rico. Digo… estaria. Há um mês atrás foi diagnosticada uma doença terminal. Era no cérebro e não havia nada a ser feito. Ele pôs os negócios em ordem, redigiu um testamento e tomou um cálice de vinho com veneno há duas semanas, enquanto ouvia o Rechiem de Mozart na sua biblioteca. Neste testamento, consta seu nome.

Ela enrubesceu bruscamente. Uma mistura de sensações – vaidade, medo, piedade, ansiedade e prazer – explodiu dentro dela assim que ele pontuou a frase e sorriu. O jovem parecia perceber.

-Porém, pela lei – disse o rapaz – pelo menos metade dos bens deve ficar com os herdeiros legítimos de sangue. Neste caso… o único que há sou eu. E, antes que os advogados comecem a dar maus conselhos sobre como lidar com a herança de Daniel Ripke, eu gostaria de encontrar-me com a senhorita pessoalmente e, sem assinatura de nenhum documento, nem gravadores ligados ou artimanhas do tipo, expor o que teremos de dividir e ouvir suas idéias a respeito. Mas asseguro-lhe de que se trata de, mesmo dividido pela metade, liberdade, ócio e glamour pelo resto da vida.

Lúcia chegou a abrir a boca para gritar. E teria desmaiado se não chegasse a uma conclusão súbita.

Era um sonho! Era a terra prometida! Era como num conto de fadas! Era…

Bom demais pra ser verdade.

Assim como com Antônio. E a vida lhe ensinara que tais coisas normalmente carregavam amargas decepções.

-Eu sou apenas uma…

Calou-se. O que diria. Uma mulher?

Aquela palavra fora usada em tom pejorativo várias vezes pelo único homem com quem ela já dormira. E isso transformara – juntamente com os punhos e uma cinta de couro – uma estudante esperta, dinâmica e alegre numa sombra enjaulada e submissa. Odiou Antônio por aquilo… e odiou mais a si mesma. Por se haver submetido. Por que será que, diante daquele jovem tão gentil, não conseguia parar de pensar no marido?

-Será que eu posso entrar agora?

Duas forças lutaram dentro dela. E isso era visível em seu rosto, pelo menos para o jovem paciente do lado de fora. No final, a força que dizia para não abrir venceu – no entanto, não foi o medo de Antônio, mas a desconfiança, as duras lições que a vida lhe dera sobre os homens, que a impediram de erguer a mão para o trinco.

-Lamento – murmurou ela – mas é muito tarde e, como você mesmo disse, eu não o conheço. E sinto muito dizer que não lembro de seu tio. Ele devia ser um rapaz muito bom.

O jovem sorriu um sorriso triste. Estava frustrado – mas não decepcionado. Não inteiramente, pelo menos. O desprezo que houvera em seus olhos já sumira.

-Bem, assim sendo, só me resta uma opção…

E meteu a mão dentro do paletó.

O susto foi apenas momentâneo. Dali não surgiu nenhuma arma, apenas um envelope em branco, mas pesado.

Ele depositou, com cautela e delicadeza, o envelope no chão, do seu lado da grade. Depois disso, disse a ela.

-Aí está toda a documentação comprovando o que eu disse. Pegue, leia e, se possível, apareça na casa do falecido amanhã, aí pelas sete horas da noite, ou mais tarde, quando eu terei voltado de meus afazeres e poderei te receber. Então poderemos tratar melhor de tua herança.

Ela olhou para o envelope, quase hipnotizada. Ouviu os passos do jovem se afastando e um suave “Boa noite” os acompanhando. Não levantou os olhos para ver como ele partia. Curvou-se, enfiou a mão pelas grades e pegou o que o estranho lhe deixara.

Só então percebeu que, em nenhum momento, aquele sobrinho de Daniel Ripke lhe deixara seu nome.

Entrou em casa e foi para a cama. Seu marido podia chegar a qualquer instante e ela não queria que ele visse aquilo. Por isso, abriu o travesseiro com uma tesoura, colocou o envelope, ainda fechado, no meio das bolotas de algodão no interior, e costurou por cima do rasgo. Depois, cobriu-o com a fronha e deitou-se.

Estava feliz… e com medo. A combinação perfeita da expectativa.

No entanto, num desses estranhos paradoxos, dormiu muito bem. E sonhos muito doces, dos quais não restava nenhuma lembrança no dia seguinte, exceto a de que eram doces, a acompanharam durante a noite inteira, pela primeira vez em anos.

II

Lúcia acordou tão feliz e esperançosa que nem deu importância quando percebeu que era meio-dia e não havia nem sinal do seu marido. Não que o fato fosse muito inusitado. Ele já tivera sumiços de até três dias. Num deles, ela recebera um corretivo bem rigoroso por ter tido a audácia de, no terceiro dia, se ausentar dali para falar com uma amiga sobre como estava preocupada.

Tomou um longo banho e saiu. Colocou a sua melhor roupa – uma roupa escura, adequada para luto – e preparou sozinha e apenas para si mesma a única refeição daquele dia.

Deitou-se preguiçosa no sofá da sala e ligou um de seus discos favoritos. Uma música suave e romântica. Pôs-se a fazer planos. Não haviam casado com comunhão de bens por insistência dele. Portanto, quando se divorciasse, não haveria como ele ficar com o bocado da herança que pertencia a ela… pelo menos assim ela pensava. Claro que, ao contrário do que dizem os juristas, na lei nada é exato, mas tinha a confiança de que se faria independente economicamente e, conseqüentemente, livrar-se-ia daquele monstro para sempre.

Dois terrores a assaltaram quase instantaneamente, quando teve este pensamento: primeiro a possibilidade de, na batalha jurídica que poderia se seguir, o seu marido realmente abocanhasse a metade… e, se essa metade não fosse o suficiente, ela teria que continuar com ele… e todo o esforço teria sido por nada. O segundo terror era ainda pior, porque nada tinha a ver com outras pessoas, e sim com ela.

Tinha medo de acabar com bastante dinheiro… e não saber o que fazer com ele! De gastá-lo de maneira irresponsável e terminar pobre… tendo que rastejar diante de outro homem para sobreviver novamente.

Chorou com ódio por si mesma! Quando aquilo acontecera? Era uma menina decidida! Uma estudante capaz! Tinha talento e convicção! Poderia ter sido o que quisesse e, no entanto, ali estava ela, com medo de não sobreviver sozinha, sem alguém para cuidar dela… mesmo que fosse o cuidado que se dispensa a uma besta domada.

Levantou-se de sopetão, depois de chorar por um tempo indefinido e decidiu que iria tentar. Nada pior do que ver um vislumbre de esperança e voltar a ser tudo como era antes.

Caminhou para o banheiro, lavou o rosto, a maquiagem e as lágrimas, e se preparou para sair dali naquele instante. Ao abrir a porta, levou um susto. No meio de todas aquelas reflexões e ansiedades, havia escurecido.

Talvez rápido demais.

Levava o envelope na mão. Abriu-o no meio da rua e constatou que o seu formato estufado era apenas mera ilusão. Só havia um papel no interior dele, que dizia:

Cara Senhorita Lúcia Lumpczeck,

tenho o pesaroso dever de informar que o homem que mais a amou nesta vida, o Sr. Daniel Ripke, faleceu recentemente e expressou seu desejo de lhe prestar um serviço póstumo. Para maiores esclarecimentos, dirija-se a sua mais recente residência

Rua Elmo Fattori – nº 135 – facilmente reconhecível pela alameda frontal e por ser a última da rua

o mais brevemente possível.

A senhorita é ansiosamente aguardada,

Afetuosamente,

D.

Aquilo era um pouco misterioso demais. Quem diabos era D.? O mesmo menino que chegara na sua casa? Será que ele também se chamava Daniel?  Diego? Diogo? Demétrio?

Nenhum documento. Nada que comprovasse que a história era verdadeira. Aquilo não era mais seguro! O melhor a fazer era voltar para a segurança de seu lar!

Segurança?

Não havia segurança nenhuma lá. E menos ainda agora, que ela já estava a duas quadras de casa – como andara rápido! Era como se fugisse de algo!

Subitamente, num ato de coragem extrema, preferiu o risco desconhecido. Empertigou a cabeça e seguiu caminhando, decidida. Independente do que lhe acontecesse, mesmo se o suposto sobrinho de seu esquecido colega fosse um maníaco com uma lábia muito boa, ela não voltaria para lá. Poderia ser violentada ou morta no meio daquela aventura. Poderia cair num conto do vigário e perder tudo o que tinha. Qualquer coisa era melhor do que sofrer tudo isso e muito mais nas mãos do único homem com quem convivera nos últimos oito anos.

Pelo menos, seriam estranhos a agredí-la, e não seu marido.

Não ele, que deveria amá-la e protegê-la.

Não ele, seu odiado algoz.

III

A casa do fim da rua Elmo não era apenas a última casa – era a o fim da rua.

A rua era longa, mas terminava num beco sem saída. Este lugar era o começo da propriedade abandonada e deserta que havia ali desde que ela era menina. A casa mal-assombrada da vizinhança, conforme o imaginário infanto-juvenil. Sabia que todos diziam lendas absurdíssimas sobre seus antigos moradores, na maioria das vezes bem incoerentes entre si, no entanto…

Não vinha ali fazia anos, mesmo percebendo, enquanto se aproximava, o quanto aquela casa estava perto da dela. E notou, estranhamente, que apesar de escura e com uma atmosfera de abandono, a casa fora reformada e estava muito bem conservada agora.

Todas as vidraças eram novas, bem como as venezianas fechadas atrás delas. A pintura fora refeita com uma cor qualquer sem brilho, quase indefinível no escuro, e a grade sobre o muro trocada e reforçada. Estava bastante diferente de quando ela brincava ali com outras crianças… e mesmo assim, bastante igual. Continuava escura, sem nenhuma luz acesa, e a alameda e o jardim da frente continuavam um matagal. Como uma selva da qual emergia a casa de dois andares e uma pequena estrutura em forma de torre no centro do telhado como se fosse um gigante de pedra espreitando uma presa.

E a presa era ela.

Pelo menos assim lhe passou pela cabeça, por um instante, antes que avistasse a silhueta do rapaz que lhe abordara na outra noite, sob a sombra de uma árvore do pátio interno, segurando o portão aberto e sorrindo para ela.

E, com aquele sorriso, todo o seu medo se derreteu. E imediatamente ela sentiu e soube, desta vez com certeza, o quanto se sentira atraída por ele. Num nível profundo e tocante. Teve a súbita intuição de que ele tinha a mesma idade que ela tinha quando se casara. Porque não havia alguém assim? Gentil. Simpático. Humilde, mas sem ser fraco. Alguém que a teria feito feliz e que teria crescido junto com ela. E não um homem autoritário, mais velho, que a havia feito regredir a um estado de infantilidade doentia.

Ora, Lúcia, disse-lhe uma voz suavemente firme, como a de um bom professor, em sua mente, havia muitos desses à sua volta. Mas você os desprezava. Era incapaz de vê-los. Na sua ânsia de ser mais, quis um homem que pensava que era mais que os outros. Um erro comum, se me permite dizer.

            Seria a voz da sua consciência? Se era, sua consciência deveria ter uma voz bastante masculina.

Sem pensar mais nada, atraída por aquele sorriso hipnótico, se aproximou da entrada, então, subitamente parou. O jovem estava numa imobilidade gélida. Por um instante, pensou que se iludira com uma estranha estátua de jardim.

-Não precisa ter medo. Não lhe farei nenhum mal. Se quiser entrar, é só cruzar o portão – disse a figura, movendo os lábios muito pouco.

Aquilo convenceu-a a abandonar seus delírios.

E então atravessou a linha que a separava de sua antiga vida.

A antiga Lúcia acabara de morrer, embora ainda não soubesse disso. A nova estava entrando em incubação dentro dela, formada por outra Lúcia ainda mais antiga e por algo novo, que aquele jovem trouxera.

Ele caminhou ao lado dela. Estava vestido como se fosse para uma festa. O terno prosseguia negro, mas a camisa por baixo agora era vermelha e sem gravata. O cabelo não mudara. Profuso, negro e quase flutuante, tão finos que eram os fios.

Não disseram uma palavra, mas ela lhe deu a mão.

E compreendeu que nada mais precisava temer. O que quer que fosse que ele lhe trouxera, ele também a ajudaria a cuidar.

As portas da entrada se abriram e, no imenso salão onde no passado se realizavam festas e talvez até mesmo bailes mais discretos e particulares, estava armado um funeral. Um funeralem casa. Asflores estavam dispostas por todas as paredes e algumas delas espalhadas pelo chão. E ela percebeu que não eram flores de enterro comuns – eram suas flores preferidas do tempo de menina. No centro da sala estava disposto o caixão, fechado. Toda a iluminação daquele lugar provinha de candelabros espalhados sobre pedestais de mármore, formando um desenho geométrico ordenado.

Não havia mais ninguém além deles dois.

-Não imaginava que ele tivesse morrido há tão pouco tempo.

-Ele costumava dizer que morreu no dia em que você se casou. Porque não dá uma olhada nele? Ele gostaria de receber de suas mãos uma flor.

E o jovem, delicadamente, colocou um copo-de-leite na mão dela. Ela olhou para ele e viu que ele tinha os olhos vermelhos, prestes a chorar. Sem pensar no que fazia, abraçou-o. Tentou lhe beijar a testa, mas o menino disse.

-Não. Não ainda. Vá até o caixão.

E desvencilhando-se suavemente de seus braços, entrou por uma outra porta, na parede em frente, saindo daquela sala.

Lúcia chorava ela própria, por um homem que sequer conhecia. O quanto ele a teria amado? Mudo. Torturado. Fazendo o que quer que fosse e levando uma vida de celibatário, enriquecendo sem alegria, atormentado por saudades dela.

Uma parte sua lhe gritava Não existem tais pessoas! Não existem pessoas tão abnegadas fora de um romance exagerado e fora de moda! Este homem deve ter tido seus casos! Deve ter sido feliz! Qualquer rico que mande na própria vida é feliz e…

E agora estava morto, e lhe legara tudo o que construíra. Tentara, mas as lágrimas sobrenaturalmente sinceras eram impossíveis de se deter.

Diante da tampa do esquife, ela ergueu a mão esquerda suavemente, para abri-lo e depositar a flor, com um beijo, na mão de seu admirador secreto.

E tudo virou horror.

O rosto que havia ali, a princípio era nebuloso, e parecia que estava imerso em névoa, como se houvesse no caixão uma máquina de gelo seco. Mas, em seguida, esta impressão passou – ou melhor, se transformou em outra, como se aquele rosto, e aquele corpo, tivessem engolido aquela fumaça estranha pelos poros – e ela viu quem era o seu adorador defunto.

E era o mesmo jovem que a recebera ali. Usando a mesma roupa.

Como? Ele a vira abrir a porta! Ele saíra dali diante dos olhos dela! Não houvera voltado, com certeza!

O medo começou quando ela pensou que acabara de se encontrar com um fantasma… e virou terror quando o cadáver abriu os olhos brilhantes, na semi-obscuridade da sala e a fitou com um olhar apaixonado.

Ela gritou automaticamente, como se obedecesse a um treinamento condicionado, e virou-se para correr de volta a entrada. Sentiu uma brisa suave e rápida passar às suas costas e, inexplicavelmente, diante da porta, estava o mesmo jovem, segurando a flor que ela deixara cair no momento do grito.

-Foi apenas uma brincadeira. O choque irá deixá-la mais receptiva para o que virá depois.

Sua resposta, depois de ficar um instante paralisada por aquelas palavras em tom sério, mas ainda assim tão suave, foi desferir um golpe no rosto dele com sua bolsa e correr para outra direção. O golpe teria sido forte o suficiente para fazê-lo cambalear, caso não desviasse. No entanto, ele não fez nem uma coisa, nem outra. Seu cabelo se agitou um pouco e… mais nada. Nem seu corpo nem seu rosto moveram um milímetro do lugar.

Ela tentou fugir novamente. Atrás, só havia aquela voz.

-Escute, vamos conversar primeiro, por favor.

Ela não queria ouvir nada. No fundo do salão havia uma escada. Subi-la seria idiotice, se fôssemos pensar, mas levando-se em consideração que a coisa estava no extremo oposto, na porta de entrada, ela não pensava. Tudo o que queria era se afastar dele.

Ganhou a escadaria e olhou para os dois lados. Não o viu. Olhou para trás…

… e uma coisa disforme, fantasmagórica, nem fumaça e nem névoa, mas bastante semelhante a isso, rastejava pela escada em sua direção. Ela viu – ou teve a impressão de ver – dois olhos brilhantes no meio daquilo.

Ela gritou mais uma vez e olhou para a frente. Havia mais um lance de escadas que levava, provavelmente para o aposento da torre. Aquele não tinha vidros e nem venezianas. Dali poderia gritar por ajuda ou mesmo escorregar pelo telhado até o jardim e depois, semi-aleijada, correr pela rua gritando.

Os passos ecoaram por esta escada que, no segundo lance, ficou estreita e espiralada. Pensou que terminaria num alçapão, e aí ela morreria de medo ou se mataria, mas não foi o que aconteceu. Havia um alçapão, mas ele esperava por ela, aberto.

Ela emergiu na torrezinha. Apenas um mirante do qual se via uma paisagem que, outrora, quando aquela casa talvez estivesse no campo e sobre o qual uma cidade se ergueria ao redor dela, teria sido bela. Viu o telhado ao seu redor e as janelas grandes, na verdade simples vãos entre o teto do mirante e um muro de pedra fácil de saltar. Era melhor quebrar o pescoço e morrer tentando do que…

E eis que surgia, emergindo de trás do muro para o qual ela estava virada ao chegar ali, o mesmo jovem. E agora ela o via como ele realmente era. Flutuando, erguido no ar pela força do próprio salto, depois de se ter escorregado pela frestas das telhas silenciosamente e assumido uma forma mais semelhante a um homem, leve como um balão cheio de vapor quente. Apesar da luminosa Lua Cheia atrás dele, cujo brilho ela quase conseguia ver, como se ele fosse translúcido, nenhuma sombra se projetava sobre ela e nenhuma mudança havia na claridade do mirante. Imaginou, insanamente, se alguém mais na rua o enxergaria além dela. Se tudo aquilo não estava sendo vivido, na verdade, numa sala alcochoada e monitorada, com ela embrulhada numa camisa de força, depois de finalmente enlouquecer pela tortura doméstica constante.

Ele não tinha sombra, isso era fato, mas seu corpo era escuro como se fosse visto debaixo de uma. E, além disso, seus olhos brilhavam intensamente, não como os de um animal, mas como se fossem verdadeira lâmpadas esverdeadas, dotadas de luz própria, nas quais se via, em tom sobre tom, em círculos cocêntricos, as partes de um olho humano.

E o brilho de seu sorriso agora era plenamente compreensível. Afiados como facas e compridos como agulhas, seus dois caninos superiores pareciam feitos de marfim, mas tão refulgentes quanto prata.

Ela abriu a boca para gritar. Não teve tempo. Antes que ela visse seu movimento, ele estava sobre ela. Com a mão esquerda, apanhara suas duas mãos, e, com a direita, tapava sua boca. Ela queria gritar mais alto, mas nem um grunhido saia, pois, por alguma estranha força, sua garganta também estava paralisada.

Ele olhava para seu pescoço, arfando, ansioso, como um menino prestes a ter sua primeira experiência sexual. Uma respiração de maníaco… mas também de amante apaixonado.

No entanto, voltou os olhos para ela, e, enquanto eles pareciam ficar mais humanos, ela pôde ver o quanto domar o impulso quase irresistível que o jogaria contra suas veias custara em termos de força de vontade.

Mas ele acabou por vencer a luta.

Recobrando o auto-controle, diminuindo pouco a pouco o ritmo da respiração, mas sem nunca afrouxar a pressão que suas mãos geladas faziam sobre os pulsos e os lábios dela, ele disse, calmamente.

-Agora escute. Eu vou tirar a mão de sua boca. Se você gritar, eu vou morder você. Já perdi a conta de quantas pessoas eu matei desde que… bom, desde que fiquei assim. Mas não vou te matar. Vou sugar apenas o suficiente para que você desmaie… e você vai acordar em sua casa. Cada vestígio da minha existência vai ter sumido de sua vida, e, se um dia voltar aqui, vai encontrar a mesma casa em ruínas de sua infância, e ninguém mais se lembrará disso, a não ser você, e acho que, com o tempo, você irá se convencer de que foi tudo apenas um sonho romântico e cruel. Mas… é isso o que você quer? Voltar para a sua casa? Não quer ouvir o que eu tenho para lhe oferecer antes de voltar para o verdadeiro vampiro em sua vida?

Ele tirou a mão e, em seguida, era o mesmo jovem, gentil e ligeiramente preocupado. Com um salto, se pôs sentado sobre o muro que havia entre ela e o telhado. Ela não gritou, mas olhou para as outras janelas.

-Vá em frente, se é o que deseja. Não posso obrigá-la a ficar comigo. Não podia quando vivia… e ainda não posso agora. Mas, se saltar e correr por aí, vai estar louca antes de chegarem casa. Daquipro hospício, onde seu marido a colocará para sempre, enquanto prepara os papéis de divórcio e atestado permanente de insanidade que o deixará livre para conhecer a mãe de seus filhos. Será que é tão ruim assim não poder conceber? Não tem me feito muita falta…

-Quem… é você? – ela perguntou, entre lágrimas.

-Você sabe. Daniel Ripke. O garoto que te observava apaixonado e nunca teve coragem de se aproximar. Quando soube que você estava noiva, depois do fim dos estudos, quase me matei, sabia? Eu não tinha mais nada. Era inteligente, mas o nervosismo me fizera reprovar no vestibular. Não tinha amigos, meus pais eram frios e distantes, e me olhavam agora com reprovação. Não tinha namorada e nem vontade ou coragem para me aproximar de ninguém. Amor? Amor é uma coisa cruel, porque você se coloca sob o controle de outra pessoa… não é mesmo? Você sabe disso. Eu te observei nos últimos cinco anos, esperando criar coragem para falar com você de novo. Não quero comparar o que eu vivi com o que você viveu até agora… mas amar pode ser o paraíso ou uma desgraça. Talvez por uma questão de pura sorte.

-O que você quer de mim? – choramingou Lúcia – Vingança?

-Minha querida… não ouviu nada do que eu disse?

Respirou fundo e falou, com aparente calma, mas com os olhos em chamas.

-Eu te amo. Como poderia querer me vingar de você? O que você me fez de mal?

Ela o olhou. A situação era simplesmente surreal. Porque todo aquele diálogo era versossímil – meio romanesco, mas verossímil – alguém que mantivera por anos uma paixão secreta e resolvera subitamente se declarar. Isso era o mais horripilante. Levando-se em conta que o apaixonado tinha presas de lobo na boca e olhos com luz própria, seria menos enlouquecedor se ele desse gargalhadas sádicas e dissesse que iria amaldiçoar sua existência.

Ela tentou impor uma certa lógica naquilo. Era um exercício constante de pessoas que tinham uma existência sofrida e difícil. Tentou descobrir alguma coisa sobre ele:

-E como foi… como foi que…

Não conseguiu terminar a frase. O medo era horrível. Paralisante.

Ele sorriu, parecia ser capaz de saber tudo o que ela sentia. Movendo-se como um relâmpago, estava ao lado do alçapão, e disse a ela.

-Não precisa se preocupar. Pode perguntar o que quiser sem medo. Vamos a outro lugar? Não precisa ser àquele horrível caixão, que você detestou.

Ela lhe tomou a mão e os dois desceram juntos. Era paradoxal, mas ela se sentia confortada, protegida e apavorada num só instante. Como Bela no castelo da Fera. Talvez de fato, por trás de toda aquela loucura, ele a amasse ainda.

Mas… ele era um monstro.

-Há coisas bem piores do que eu – disse ele, como se lesse seus pensamentos – e você já as conheceu, Lúcia. Não precisa ter medo de mim, porque eu não quero e nunca irei querer te machucar.

Haviam chegado à biblioteca da grande casa. Estava limpa e bem arrumada, e as estantes cheias. Uma garrafa de vinho suave esperava numa mesinha entre duas poltronas. Instintivamente, ela se sentou e viu que havia apenas um cálice.

-Não precisa se constranger. Raras vezes eu tenho oportunidade para ser hospitaleiro, o que me causa grande prazer.

Abriu a garrafa e encheu o cálice. Ela bebeu trêmula, precisando se acalmar.

-O que te deixa nervosa, isso eu sei, é que eu posso te machucar, se eu quiser. Não há possibilidade de defesa se eu quiser te fazer mal, pode acreditar. Mas eu não sou um covarde e não tenho porque fazer isso. Eu a amo como nunca alguém amará depois de mim. Creia em mim… nos últimos oito anos você nunca esteve tão segura, minha bela.

-Você disse que… mata… mata… p…. pes…

-É óbvio! Caso não tenha percebido, eu sou um vampiro! No sentido literal! Eu sei que parece quase piada, que a coisa virou um clichê de cinema, literatura e televisão, mas a chave do problema é que eu sou. E, se eu não quiser definhar, enfraquecer e talvez até morrer, eu preciso matar e beber sangue. Eu mato pra sobreviver, não tenho remorso nenhum, e às vezes me divirto bastante com isso… mas não faço por mal, ou porque quero, apenas. O fato simples e inegável é que o sangue humano é meu único alimento possível.

-Isso é monstruoso!

-Monstruoso? Se você refletir, vai ver que, no meu caso, é uma simples necessidade. Cada criatura que existe, se alimenta da vida de outra criatura, através do fenômeno da morte. Se eu ficar tendo crises de remorso, vou acabar louco. Além disso, há um detalhe que você esquece… Há homens que matam por dinheiro, por ódio, por poder, por prazer, há pessoas que declaram guerras irresponsavelmente. Matam podendo escolher não fazê-lo. Outras tantas se comprazem com a dor alheia, com a sensação de poder que isso traz. Mas eu… Eu preciso de sangue! Se eu quero ou não não importa, porque eu não tenho escolha nenhuma!

Havia indignação sincera em sua voz, e ele completou, implacável:

-Eu sou um vampiro, quer eu goste ou não. Qual é a desculpa de homens como o seu horrível marido?

-O que você sabe sobre…

-Eu sei tudo. Ou quase tudo… o suficiente para saber que ele e boa parte dos que andam sob o sol é muito pior do que eu. Eles poderiam viver diferente, poderiam aproveitar as delícias da vida terrena, das quais fui privado tão cedo…

Contemplou o cálice, que ela segurava diante dos seios – ou talvez os seus próprios seios, visíveis pelo decote de seu vestido. Um vestido preto e longo, que ela escolhera talvez para honrar o tio do menino… talvez para seduzir o menino. Talvez porque fosse a peça mais bonita de seu guarda-roupa.

Não havia menino e nem tio. Aquela criatura era tão velha quanto ela. Morrera muito antes e continuava a caminhar pelo mundo. Aquele olhar era para seus seios. Mas era um olhar de tristeza, mais que de desejo. Um olhar de eunuco no meio do harém. Um olhar de alguém que perdeu o olfato e o paladar e vai trabalhar na fantástica fábrica de chocolate.

- Aproveitá-las e valorizá-las, sem buscar privar os outros das mesmas. Poderiam fazê-lo sem medo e nem culpa, e sem buscar a dor alheia… e escolhem fazer o mal. Escolhem impor infelicidade a si e aos outros. Ou só conseguem ser felizes através do suplício de outras pessoas. Eu… não tenho nada do que eles têm. Mato várias pessoas a cada ano… pessoas ruins, ou desesperadas demais para terem chance de viver uma vida decente… ou mesmo pessoas boas, se estou com muita fome e não há mais nada disponível. Mas não me foi dada opção.

Olhou para ela com olhos duros.

-Seu marido, no entanto, teve todas as chances de ser um sujeito decente… e jogou todas fora com desprezo.

Ela quis mudar de assunto.

-Como isso acontece? Quer dizer… de onde vem essa…

-Doença?

-Eu ia dizer condição.

-Mas pensou doença. Tudo bem, eu conto, mesmo sabendo que você não está realmente querendo ouvir. Está tentando ganhar tempo. E vai conseguir. Está mais calma, mas ainda sente medo e repulsa por mim.

Prosseguiu:

-Se você me perguntou a origem desta maldição, eu vou ter que ser honesto… não sei. A origem de criaturas como eu é antiga. Pesquisei o que há pra ver em bibliotecas, e os fatos se contradizem, mas todos os relatos são antigos. Vêm de lendas de muitas origens diferentes e eu… eu não sei de onde veio o primeiro, nem sei se a forma pela qual eu me tornei isto é a única possível.

-Mas outro… outro como você… não sabe?

Ele sorriu diante da ingenuidade dela.

-Outro? O que a leva a pensar que, nestes oito anos, algum dia eu vi outro como eu? Eu tenho vivido sozinho desde que isso me aconteceu… e a pessoa que fez isso comigo está morta. Ou… destruída.

Deu um longo suspiro.

-Não sei quem ela era. Mas as circunstâncias em que a encontrei tem a ver com você… li a notícia de seu casamento no jornal e fui até a igreja em que ele se realizou, para assistir do outro lado da rua. Achei, a princípio, que iria me ajudar a aceitar a coisa. A lidar com a realidade do fato. E que, a partir daquilo, eu poderia continuar vivendo como se eu nunca tivesse te conhecido. Então, o que aconteceu? Tudo ficou ainda pior. Junto com a frustração, ver aquele homem contra o qual, em se tratando de conquistas amorosas, eu jamais teria a menor chance, fez surgir em mim outros sentimentos ainda piores… raiva, inveja, revolta… e um profundo senso de humilhação e orgulho ferido. Porque eu te adorava. Você era a única deusa de meu panteão particular… e ele te levava embora com indiferença. Dava pra ver que aquele homem, o que você escolhera, não dava a você metade da importância que você dava a ele, e nem um décimo da importância que eu dava a você. Isso era o que mais doía! Você era o brinquedinho adolescente dele… ele não te amava e não queria a tua felicidade… mas iria matar quem tentasse tirá-la dele, porque homens assim não suportam ser contrariados e não admitem que alguém se meta com as suas propriedades.

            -Você não tinha como saber de tudo isso…

-É mentira, por acaso?

Ela calou-se.

-Eu sabia. São coisas que se sabe, quando a gente ama e não é correspondido. São coisas que se sabe e que se têm certeza, tão certo quando o conhecimento da diferença da noite e do dia. O mistério da compreensão. Eu sabia. E eu sabia que não tinha chance.

-Por que você nunca tentou…

-Se aproximar de você? Acredite em mim, eu tentaria. Eu era tímido como uma raposa  européia… e tentaria mesmo assim, com o coração aos pulos… se acreditasse que tinha alguma chance. Mas eu e você não ocupávamos o mesmo nível na hieraraquia dos relacionamentos. Eu estava muito, muito abaixo. Os homens em geral só têm acesso às mulheres de seu nível pra baixo.

-Você está generalizando, e não teria como saber se não tentasse.

-Honestamente, Lúcia: Eu tinha alguma chance? Você trocaria o bonitão mais velho que fazia todas as suas amigas se morderem de inveja por alguém da mesma idade que você e sem nenum atrativo especial? Pense em mim, naquela época, e nele. Você trocaria?

-Eu… eu não me lembro de você.

-Isso encerra a questão.

Ela calou-se. Não havia cobrança e nem acusação na voz dele. Tratava-se apenas de estabelecer um fato. A partir daquele fato, talvez ela pudesse compreeender.

-Então, depois da cerimônia terminar e eu, do outro lado da rua, assistir à partida de vocês para a lua-de-mel no carrão dele, decidi que não valia mais nada viver. Não me entenda mal. Não estou te culpando por nada. Foi escolha minha e não acho que você tivesse ou tenha hoje alguma obrigação comigo. Não senti raiva de você… de sua escolha, sim, mas não de você. Apenas achei que viver seria insuportável dali para a diante.

Ela estava atenta. A expectativa do fim da história já surgira nela. Passara de medrosa a levemente interessada.

-Meu pai guardava um revólver carregado. Eu tomei ele da gaveta no dia seguinte e vim para cá, sem contar pra ninguém. Para esta casa, que era uma ruína na época, na qual eu nunca tivera coragem de entrar quando criança. Escolhi este lugar porque era um no qual eu sabia que ninguém me procuraria… então eu tirei a arma do bolso, engatilhei-a e coloquei-a sobre um caixote quebrado. Não atirei naquele momento. Não sei porque. Estava decidido a morrer, não tenha dúvida, mas por alguma razão, decidi esperar a noite. Talvez fosse romantismo, mas talvez eu soubesse, intuitivamente, que deveria esperar alguma coisa grande acontecer. Talvez não uma coisa boa, mas uma coisa grande. E aconteceu. O Sol caminhou e as sombras se moveram. O dia passou, eu não comi e nem bebi nada. Chegou a noite e eu ouvi ruídos na casa. Estivera contemplando o revólver na última meia-hora. Havia acabado de apontá-lo para a cabeça… quando os ruídos começaram.

-E o que eram? – ela acabara de passar para ansiosa. Levemente interessada, para ansiosa.

-Uma luta. Uma jovem. Uma menina da nossa idade, gritava, gemia e implorava. Havia uma voz áspera de homem também. Que às vezes xingava e às vezes dava gargalhadas. Havia barulho de trastes rolando pelo chão e som de bofetadas. Vinham do andar de baixo.

-E você?

-Desci… cauteloso e curioso. Certo de que veria uma cena revoltante. E, de fato, uma jovem de longos cabelos negros, bonita e triste como a vida, estava deitada de costas no chão, usando um longo e recatado vestido, que agora estava sendo rasgado sem piedade pela mão esquerda do homem. O homem era um quarentão bêbado, fedendo a cigarro e falta de banho, que estava debruçados sobre ela, prendendo contra o chão seus dois pulsos só com a mão direita. Ela olhou para mim com um olhar de súplica. Aquele corpo era fantástico, sabe? Eu sei que deve ser sadismo, mas ver aquela pele branca se revelar sob os rasgos do vestido e as formas voluptuosas que ela tinha, junto com aquele rosto inocente, meigo e desesperado, me fez ter uma ereção na mesma hora… mas então olhei para o rosto nojento do homem, com a língua de fora e um sorriso de hiena, já levando a mão ao zíper da calça. Ele nem notara minha chegada, tão concentrado estava na barbaridade que estava prestes a cometer… e eu o odiei. Odiei cada homem prepotente e sádico que tinha o que eu jamais teria… e jamais terei.

Ela curvou-se para a frente. Ele se ergueu, vitorioso. Ela fora pega. Ele a cativara. Prosseguiu, então:

-Corri até ele e desferi um chute no seu rosto que o fez sair de cima dela e tomei distância, escondendo o revólver atrás do corpo. Queria dar a mim mesmo um motivo, por isso não o ameacei. Era um resquiciozinho hipócrita de ética e moral. Ele se levantou bufando e correu em minha direção, armado com um gargalo de garrafa apanhado às pressas no chão. Apontei a arma. Antes de disparar, não vi nenhum remorso em seus olhos… só arrependimento e medo. Um arrependimento egoísta, pelo fato de ter dado errado, apenas, e um medo das conseqüências, sem nem um resquício de culpa. Disparei uma, duas, três vezes. Acho que pelo menos uma bala já o atingira neste estágio, pois ele escorregou e caiu de costas no chão. Dei dois passos pra frente, ele estava coberto de sangue da garganta até o peito… e esvaziei o revólver naquele farrapo humano caído. Quando terminei, ele parecia apenas um boneco de carne, muito parecido com um ser humano, mas não era mais meu semelhante. Neste momento, uma voz soou atrás de mim: “Que heróico! Que nobre!”, mas eram palavras ditas num tom de desprezo e irritação. E mal me dera conta de que, no meio da briga, a garota sumira. Quando ele se levantara e tentara me atingir, devia ter tropeçado nela, mas nós dois agíramos como se ela não existisse. E, de fato, ela estava agora atrás de mim, se aproximando a passos lentos, de uma distância que eu não a vira cobrir. Tinha o vestido esfarrapado que ia terminando de rasgar e expondo o corpo. Os olhos estavam carregados de fúria… “Vai mentir pra si mesmo, salvador do dia? Ou vai admitir que quer a mesma coisa que ele queria? Vem pegar, então! Juro que não vou correr!”. Eu caminhei pra ela, como se estivesse… hipnotizado. Mas, mesmo assim, era verdade. Eu queria muito agarrar aquelas carnes bonitas e generosas. Ela era bem isso: voluptuosa. Não era gorda ou grandalhona, mas tinha seios grandes e naturais, quadris que tornavam impossível andar sem rebolar e coxas grossas e musculosas… lábios bem mais vermelhos que o normal, sem uso de maquiagem nenhuma. Quando abracei ela e comecei a beijá-la ansioso, descobri que ela era fria. Gelada como alguém depois de uma chuva, e era um verão bem quente aquele. No entanto, foi o mais perto que eu cheguei de fazer amor com uma mulher. E aqueles lábios vermelhos se abriram num esgar de ódio e revelaram… bem… você sabe o quê. Antes de enterrar as presas em mim, ela disse: “Eu queria uma coisa dele… e iria conseguir. E preferia mil vezes tomar dele do que de ti.” , disse ela, me condenando por eu ter interferido, afinal, eu acabara de estragar a sua comida, que devia ter lhe dado algum trabalho atrair, tentei escapar, mas ela me dominava completamente, com a força de um lutador de wrestling, jogou-me no chão e disse, “Mas eu não posso continuar com fome. Você não merecia… mas eu também não”.

Silêncio.

-E então? – perguntou Lúcia, sobressaltada com o final súbito da narrativa.

-Então eu morri. Ela roubou toda a vida que haviaem mim. Noentanto, mesmo morto, eu voltei.

-Como… como foi?

-A princípio, depois que o prazer bizarro de ter aquela boca carnuda rasgando minha garganta passou, depois que a dor, a náusea e a tontura da hemorragia passaram, depois que tudo esfriou e se acalmou, e eu não vi, nem ouvi, nem senti mais nada, foi como se eu mergulhasse num lago escuro e profundo, caindo de costas para um abismo sem fim. Sem luz. Sem dor. Sem remorso. Sem mágoa. Sem medo. Descanso. Apenas isso. Sono e paz. Talvez houvesse algo mais além, mas tudo o que eu sentia era… sono e paz.

-Isso é a morte?

-Não sei. Pode ter sido só delírio. Ou parte da morte… se eu tivesse visto tudo, acho que não me deixariam voltar.

-Quem não deixaria?

Ele deu de ombros. Não sabia. Aquilo parecia ser só mais uma certeza intuitiva.

-Só sei que o sono durou pouco, e comecei a ter pesadelos ainda antes de acordar. Pesadelos de verdade, confusos, surreais, sem sentido e apavorantes… com uma única diferença… eram bem mais intensos que o normal. E… eu não quero entrar em detalhes… mas dava pra ver em cada um deles tudo o que tinha dado errado em minha vida, ou tudo o que eu amava e tinha perdido. E, no maior de todos, estava você, partindo para uma floresta escura, num carrão barulhento, presa por uma coleira ao fundo do carro e a cabeça debruçada sobre o colo de Antônio Donatto, chorando e sendo obrigada a fazer você sabe o que, enquanto ele dirigia com uma mão e com a outra te dava chibatadas na bunda.

-Que horror! – a expressão fora de nojo e raiva. E ofensa. Como ele se atrevia a dizer aquelas coisas? Por um momento, ele pareceu apenas um moleque atrevido e ela esqueceu que deveria ter medo dele.

-Posso garantir, Lúcia, que este sonho foi extremamente desagradável para mim. Não me causou prazer nenhum ver aquilo. Aliás, foi tão, mas tão desagradável que foi o que me acordou, como muitos pesadelos são capazes de fazer. Um pesadelo sobrenatural pode acordar a gente do mais sobrenatural dos sonos.

Depois de dizer aquilo, ele se sentou novamente.

-Acordei sobre uma mesa gelada, sentindo dor, frio e fome. Mas a dor foi só por um instante, no local onde ela me cravara os dentes… e então sumiu. No mesmo instante em que sumiu, o homem que havia diante de mim arregalou os olhos de exclamação… e eu vi a máscara que ele usava se mexer com o ar que ele puxava para gritar… mas eu não lhe dei tempo nenhum. Acho que nem pensei no que estava fazendo. No momento seguinte, antes de receber o primeiro golpe de bisturi, eu estava debruçado e nu sobre o legista, tomando dele o que a belíssima morena tomara de mim. Me levantei aliviado… e horrorizado também. A gente assiste muitos filmes desse tipo de coisa. Acho que fica tão ligado com a fantasia que é ainda mais impossível acreditar. Insensibiliza… no entanto, o cheiro de formol, o silêncio sepulcral do necrotério e o fato de que eu fora recolhido como indigente por engano eram inegáveis… assim como o cadáver seco que havia a minha frente. Eu estava sozinho, sabia disso também… não sei como, mas sabia. Por puro instinto, vesti as roupas do cadáver e joguei-o no forno de cremação… para partes velhas e inaproveitáveis. Não era um forno funerário normal, de forma que eu tive que despedaçá-lo antes e… quer mais vinho?

Ela estendeu o cálice. Ele serviu-a, solícito, e prosseguiu.

-O vigia, salas e salas depois, me tomou por um estudante qualquer. Eu levava a maleta comigo. Caminhei por algum tempo e, quando a aurora se aproximava, senti um medo terrível e impossível de explicar… corri como um louco por refúgio… no meio da corrida, eu já não tinha mais o mesmo corpo… me transformara em…

Parou por um instante.

-Você saberá logo. O fato é que cheguei aqui, no local de minha “morte”… e dormi aqui o mais profundo dos sonhos. Com o tempo descobri o que eu era… não podia ver minha própria sombra… posso ver minha imagem em um espelho, mas ninguém mais pode além de mim, o que levou várias pessoas a se apavorarem, pois eu não tive o cuidado necessário… em vão procurei a mulher que fizera aquilo, apenas para ouvir falar através de boatos e rumores sobre uma misteriosa garota que aparecia no cemitério em noites de chuva forte… e entrava num ônibus, que levava para o inferno quem a acompanhasse. Muita coisa devia ser fantasia, mas não sei quanto… quando finalmente deixei de agir por instinto e comecei a pensar novamente, compreendendo racionalmente o que me acontecera, eu decidi investigar… e, juntando lendas e relatos, alguns deles colhidos de bocas de vítimas assustadas com a proximidade da morte nos meus dentes, descobri que ela morrera. Ao que parecia, uma de suas vítimas dera sorte e, antes de morrer, enfiara uma lasca de madeira em seu coração. Comecei a tomar cuidado com estacas, então… isto foi há cinco anos.

-E nunca viu mais nenhum?

-Ouvi coisas que talvez queiram dizer que haja mais um nesta cidade… mas não posso saber nem nunca o vi… acho que é só um boato. Além disso, eu vou viver por muito tempo… creio que, inevitavelmente, vou morrer, todos morrem, tudo morre, só muda o como. Mas antes disso, se houver mais algum no mundo, há muito tempo para nos cruzarmos. Por ora… a vida que eu levo é solitária… não há nenhuma Irmandade Secreta dos Vampiros que eu conheça. Já cheguei a pensar que posso ser o último… o sobrevivente de uma lenda cada vez mais desacreditada e banalizada. Esta existência, meu amor, é mais terrível por este motivo… solidão. Não há glamour e sedução, como alguns gostam de imaginar. Uma pessoa sem sombra e sem reflexo estragaria qualquer festa… não tenho com quem conversar, exceto por alguns bate-papos ocasionais, a maioria terminando com a morte do interlocutor… como costumo escolher gente da pior espécie, são conversas horríveis. E, sim, há certos limites que me são impostos. Nunca me deixei apanhar pelo Sol, e não sei se ele de fato me transformaria em cinzas, mas nutro verdadeiro horror por ele. Cada madrugada eu preciso correr de volta para cá, para este lugar onde eu fui criado, e me refugiar num canto escuro… para passar o tempo, com dinheiro de vítimas e coisas roubadas tornei ele mais confortável. Quando posso, quando a fome não exige ação, passo muito tempo lendo ou ouvindo música. Tudo o que tem aqui funciona a bateria, porque não há corrente elétrica…

Só então ela percebeu que o que havia nos lustres eram velas. Não apenas a sala do funeral, como tudo ali era iluminado por velas posicionadas em lampiões, lustres ou candelabros. E estavam todas acesas. Provavelmente uma cortesia destinada a ela… já que ele provavelmente podia ver no escuro.

-E conseguir estas coisas não é tão fácil, já que, mesmo que eu possa me esgueirar por qualquer canto… não posso entrar em locais sagrados.

-Como Igrejas?

-Como lares, como corpos alheios tratados com auto-estima, como escolas onde um professor dedicado trabalha, como o hospital onde há um médico que não seja cínico, como um campo onde um casal de adolescentes se sente seguro para amar… tudo aquilo que alguém individualmente ou como parte de um grupo, considera seu templo, seu local de refúgio, me é proibido invadir. Igrejas também, mas somente as poucas que têm ainda sacerdotes sinceros. Eu preciso ser arrastado pra dentro, ou convidado, e, por isso, não entrei em sua casa.

-Eu odeio a minha casa…

-Claro que odeia! Acha que eu estava falando de você? A vontade que me manteve fora foi a dele, pois ele considera sagrado tudo o que possui, e o símbolo da posse, na mente dele, é a casa confortável e bem-protegida que ele criou para enjaulá-la.

-Quer dizer que você não pode me fazer mal… só porque ele não quer? – perguntou, insultada, Lúcia.

-Eu não posso lhe fazer mal… porque eu a amo. Você é uma pessoa, e não pode ser convertida numa coisa… a menos que se submeta voluntariamente a isso. Mas meu amor faz de você o meu solo sagrado. Que eu não posso adentrar… sem um convite seu.

-Quando você ameaçou beber meu sangue…

-Eu blefei. Mas foi apenas para que você me escutasse até aqui.

-E… por quê?

-Porque apenas se passaram oito anos e eu comecei a me enfastiar da vida… a idéia de me matar, agora, me parece impossível, impensável, horrenda. E, no entanto, a minha vida está pior do que jamais esteve. A solidão que sinto não é apenas física… é espiritual. Não há criaturas iguais a mim. É como se eu fosse um estranho no ninho… um peixe fora d’água… uma coisa errada na paisagem, porque não tenho com quem me identificar. É como ser preto e branco num filme colorido. Não posso ter amigos, da mesma forma que você não pode estabelecer ligação emocional com pedaços de bife. Sei que não vou me matar. Acho que é outro limite de minha existência, meu fim virá por outras mãos, necessariamente, como nas histórias mais antigas. Mas antes que ele chegue… eu tenho medo de ficar louco.

Ela suspendeu a respiração.

-Eu comecei a escutar vozes suaves… primeiro em minha cabeça, e depois nas sombras atrás de mim. Às vezes elas falam quando estou matando alguém. Elas me instigam a fazer coisas. Coisas ruins. Eu sei que mesmo que eu declare guerra à humanidade inteira e passe uma eternidade causando-lhe mal eu não vou fazer nem uma mínima parte do que ela já faz a si própria… mas eu não quero me ver ficando louco, perdendo completamente o juízo, uma morte espiritual mil vezes pior que a morte física. Eu não tenho remorso e nem culpa com o que eu faço, porque preciso fazer, mas… se eu começar a fazer por prazer, e mais do que o necessário, aí vai ser bem diferente. Não acho que eu vou me importar quando e se isso acontecer… mas eu me importo agora, e quero evitar isso.

Ela se levantou, devagar e trêmula, novamente.

-Eu acho que, se eu me livrar da solidão… se houver outro como eu… isso pode ser evitado.

Ela tremeu mais, e tentou falar em outra coisa:

-E todas as outras pessoas… elas deveriam ter virado… vamp… vampir…

-É difícil de dizer essa palavra numa conversa séria sobre o assunto – ele sorriu – elas não levantaram, nenhuma de minhas vítimas. Sabe por quê? Por uma das duas seguintes razões: ou simplesmente não quiseram, ou então eu opus minha vontade às que eu achava que queriam. Acho que, para isso acontecer, é necessário que haja um motivo forte que prenda a pessoa aqui, neste mundo, com pelo menos parte da mente e da alma que tinha antes voltada para isso… ou então que seja chamada por quem a vitimou, ou que, pelo menos, ela não se oponha, caso a pessoa queira voltar. Acho que foi isso que aconteceu comigo… eu tinha uma grande paixão aqui… fui mordido por uma vampira e abandonado sem que ela me desse qualquer importância ou estivesse pensando se eu voltaria ou não… o que me fez voltar foi…

-Eu… quero ir pra casa… por favor!

-Eu não posso te impedir, meu amor… mas lembre-se de que o verdadeiro monstro em sua vida não sou eu. Aquele homem monstruoso tirou de você o que você tinha de mais precioso… eu me lembro de como você era impetuosa, inteligente, cheia de fogo… eu não posso te restituir o fogo que ele roubou. Mas posso lhe dar algo novo… e se houve aí alguma coisa escondida da garota que eu amei quando vivi, talvez esse algo desperte. Você pode ir para a jaula que chama de casa… e sabe o que vai encontrar lá. Solidão, tristeza, humilhação e… velhice. Uma velhice amarga, carregada de arrependimento. E, então, quando você olhar para as jovens dos tempos vindouros, você as invejará e pode chegar a odiá-las, pelo que elas ainda têm e você desperdiçou ao lado da pessoa errada. Quer ser isso? Uma velha rancorosa e frustrada? Ou tem a fantasia sinistra de que as coisas vão melhorar por mágica?

Ela não disse nada. Apenas derramou silenciosas lágrimas e caminhou para a saída. Ele não tentou detê-la. Observou-a pelas costas. Ela caminhou sozinha até a entrada, passou pelo caixão que olhou com indiferença e viu que a porta estava aberta e o portão, lá fora, também. E todo o mundo exterior pareceu uma ilusão e um pesadelo.

Parou junto a porta. As lágrimas teimavam em continuar saindo. Era uma decisão difícil… era escolher entre o péssimo e o mortalmente horrível.

No entanto… o péssimo tinha suas possibilidades. E, se nada mais houvesse a esperar ou desejar da vida, ela sabia que, conforme ele dissera, ela apenas morreria.

Virou-se para a entrada e perguntou, para as sombras da casa:

-Você me ama?

A resposta foi rápida. Ela se viu imersa em névoa e desfalecendo, antes que pudesse dizer ou pensar outra coisa, enquanto brilhavam, à frente dela, duas chamas verdes. A dor no pescoço foi rápida e, em seguida, veio um prazer estranho, intenso e assustador, misturado com um medo tão horrível que só não era pior que uma única experiência em toda a sua vida.

Sua noite de núpcias.

IV

O despertar foi súbito. Súbito como nenhum despertar poderia ser. Não havia lembrança de sonho, como acontecera para ele, nem mesmo aquele vago torpor que há logo após o sono, mesmo para os que tem mais prontidão ao acordar.

Era como se ela sempre tivesse estado ali, deitada sobre aquele caixão. Como se aquele fosse o primeiro instante de sua vida e antes não houvesse… nada. As lembranças mais recentes ainda existiam, mas pareciam vindas da vida de outra pessoa. As lembranças mais antigas, da primeira parte de sua vida, até o casamento, eram mais nítidas, mas eram como a vida de um herói ou ídolo favorito. Alguém que ela admirava, mas sabia que não poderia ser. E ela sentia nitidamente que não era mais nenhuma das duas.

Levantou-se. Percebeu que mover o próprio corpo não demandava esforço nenhum… não precisava se apoiar sobre uma perna, ou então forçar os músculos. Cada parte dela tinha uma força de movimento própria, se desejasse que seus ombros saíssem dali, pareceria ter sido puxada por uma corda atada neles.

Era leve. Era extremamente leve. E a maioria das sensações eram vagas. Os sentidos de seu corpo estavam ali, mas não lhe causavam a mesma emoção de antes. Era como estar realmente morto, era como ter apenas as informações, os fatos básicos… abaixo de mim está o chão, acima o teto, à minha frente um espelho. Nada de especial ou de realmente significativo nisso. Não sentia calor, nem frio. Não estava claro demais ou escuro demais. Sua visão seria sempre perfeita. Seu senso de orientação, também. Seria possível sentir dor?

Sentia-se tão vazia que se perguntou o que a trouxera de volta… e soube. Queria justamente aquilo… se reciclar… se transformar em outra coisa. Em algo, ainda que horrível, que soubesse amar.

O espelho colocado diante dos pés do caixão – o mesmo caixão de antes, que sempro fora para ela – era um artefato estranho, munido de um relógio de ponteiros acima do vidro, e neste vidro estava escrito com alguma tinta vermelha.

Você tem até o amanhecer para fazer sua primeira vítima,

Se não conseguir, você morrerá, já vi acontecer antes,

Num pequeno acidente que, por pouco, não transformou

Um torturador num de NÓS…

Sempre Seu,

Daniel

Ela riu. Riu alto. Riu estridentemente. Ele era tão bom, tão esperto e tão sensível… um verdadeiro cavalheiro. E sabia que ela poderia ter desistido se soubesse que teria de tomar uma decisão rápida. A antiga Lúcia-esposa teria, é claro. Aquela mulher que havia ali, porém, era feita de material melhor.

E, na imagem que somente ela podia ver, uma aparência melhor, também. Nunca mais haveria equimoses naquele corpo.

O relógio marcava dez e meia da noite.

Meia hora depois, o dr. Antonio Donatto ainda tentava convencer os policiais de que sua mulher, sumida há três dias, havia sido seqüestrada. Eles o olhavam com desconfiança… umas investigações superficiais haviam deixado bem claro o que acontecia naquela casa. Era algo que, às vezes, resultava em morte.

Eles desconfiavam. Ele sabia disso. E sabia que eles tinham razão em desconfiar, embora isto não lhe trouxesse nenhuma angústiaem si. Masele ficava perturbado com o dano que aquilo poderia causar a sua carreira e… ora, bolas! Ele não matara a mulher! Ela fugira, é claro! Tivera a audácia de fugir! Ele era inocente.

Chegou a meia-noite e ele estava sozinho. Achava que iria passar mais uma noite em claro, tentando imaginar para onde ela fora… com quem ela fugira… que detalhe quanto à segurança das suas coisas ele deixara escapar…

Suas coisas…

Quando foi meia-noite e um no relógio digital da mesinha da sala, a campainha sooou. Ele correu pensando que era a polícia de novo, fantasiando que diriam: “Encontramos a vadia esfaqueada e já apodrecendo. Foi feito pelo amante dela. Prendemos a cara. Não se preocupe, doutor Antônio, você é inocente. Não há nada pra se preocupar.”

A porta aberta, porém, revelou que, do outro lado da grade, havia uma bela dama de negro. Ruiva, pálida, esguia e de maliciosos olhos verdes. Com um sorriso irônico de quem está se divertindo muito de uma piada que entendeu sozinha.

-Posso entrar, senhor meu marido?

Só então, piscando e contemplando por mais alguns segundos, ele reconheceu Lúcia. Certo, ela estava diferente, mas nada que ele não pudesse corrigir imediatamente.

-Se pode entrar?! Já pra dentro, sua… sua vagabunda! Vai ter que…

A porta se fechou ruidosamente na sua cara. Ele piscou de surpresa. Ela estava atrás dele, sentada sobre uma poltrona, tamborilando os dedos no braço, olhando-o fixamente com o mesmo sorriso cheio de malícia.

-Sua cadela! Tá querendo brincar? Depois da sova, você vai explicar pra mim, e então pra polícia o que…

Tomou-a pelo braço e puxou-a, pondo-a em pé, preparando a outra mão para a bofetada, mas se conteve. Porque o puxão havia sido violento demais. Tão violento que agora ela estava no teto. Com as palmas e as solas dos pés descalços viradas para trás, isto é… para cima! Onde ela se grudava como uma mulher-aranha calma e infalível. Cujos cabelos cor de fogo se esparramavam sobre os ombros, imunes à lei da gravidade.

Os olhos dele se esbugalharam e o mijo lhe escorreu pela calça enquanto o grito que ele queria desesperadamente dar se evolava da boca na forma de ganidos.

-Perdão, único homem da minha vida, vou explicar sim, meu senhor amado. Mas, como você disse… vai ser depois da sova.

            Então ele abriu a boca para gritar… e correu. Correu para seu quarto. Ela correu atrás dele. Rastejando pelo teto. Poderia ter pulado à sua frente assim que quisesse, mas, na verdade, queria saborear o momento.

Ele entrou e trancou a porta. Se agarrou a ela, chorando. Disse numa voz efeminada e submissa.

-Amorzinho… vamos… vamos conversar?

-Bu!

Dessa vez, ele gritou. Ela estava dentro do quarto. Em pé, sobre a cama dele.

Só então, só depois desse primeiro grito, ela o agrediu. Agarrou o seu braço e o torceu, quebrando ossos com um estalo. Ele se ajoelhou, enquanto o grito ia de grave a um agudo covarde.

-Você vai ser a minha putinha boazinha! Minha putinha boazinha!

            Chamá-lo assim era uma brincadeira mórbida… ele já havia se referido a ela nestes termos e em outros equivalentes.

            Deu um soco em seu rosto. Depois outro e outro. Não deu o quarto porque, mesmo sem querer, aumentara a força demais, e não queria matá-lo. Chutou o estômago, e depois os testículos. Ele vomitou sem reagir. Ele não reagia. Estava completamente paralisado. Muito mais que pela superioridade física do outro… por medo. Exatamente como a mulher que ela fora, algum tempo atrás.

Puxou os cabelos dele para trás, deitou-o no chão e montou em suas costas, aproximou a boca do ouvido dele e murmurou.

-O que você é?

-Putinha boazinha… uma putinha boazinha…

-Se gritar como uma menina de novo, eu te perdôo, meu homem.

Ele deu o grito mais desesperado, apavorado, agudo e covarde que havia dentro dele. Mas era apenas isso… covardia. A mesma covardia que tornava possível as surras. Não havia remorso. Não havia culpa. Mesmo assim, ela o perdoou. Ele era um homem fraco e pequeno agora, e não podia mais lhe fazer nenhum mal.

No entanto, não podia correr riscos.

Beijou o seu ouvido e disse, com sinceridade:

-Desculpe se eu me excedi, mas você mereceu… descanse em paz.

Ele quis gritar de novo que não era justo – mas, apesar de sua supervalorizada formação universitária, Antônio tinha a mesma noção de justiça que a maioria das pessoas comuns. Justo é o que me traz beneficios, injusto é o que me prejudica. Visto isso sem nenhum paradoxo.

Porém, reflexões sobre a justiça não importaram tanto naquele momento, porque o que levou as presas de Lúcia à garganta de seu antigo marido não foi desejo de justiça, e nem sequer sede de vingança, que já fora devidamente saciada. Foi a fome. A compreensão do que Daniel dissera quando se referia à palavra necessidade.

Daniel estava ali quando ela terminou sua refeição. Ele se abaixou e esmagou o coração, na cavidade seca do peito do cadáver, com uma única mão.

-Para ter certeza…

Os dois se olharam. Ela estava coberta de sangue do lábio inferior até o colo. Seu vestido estava amarrotado e seus cabelos desgrenhados selvagemente. Seus olhos eram chamas ainda mais brilhantes que os dele. E ela tremia convulsivamente, sacudida por espasmos de um prazer horrendamente belo.

-Você está linda – disse ele languidamente.

Seu sorriso se abriu antes que ela parasse de tremer, e ela derramou lágrimas vermelhas pelas faces estendendo as mãos para ele. Somente depois de oito anos ouvira aquela frase novamente, dita cara a cara.

Não havia mais medo, em nenhum dos dois.

Finalmente, após anos de espera, horror e ansiedade, a libertação viera. Para ambos e com igual doçura. Partiram dali, juntos e livres.

Habitada agora apenas por um cadáver irreconhecível, a casa mais segura da vizinhança, se por arte deles ou do destino não se sabe, incendiou-se na mesma noite. E nada do que havia lá sobreviveu.

Muitos da vizinhança afirmam ter ouvido ou visto, pouco antes do incêndio começar, um casal estranho caminhando pela rua, rindo satisfeitos e brincando, como dois namorados, dir-se-ia dois jovens colegiais, sem nenhum respeito pelo sono alheio e nenhuma vergonha de suas gargalhadas e beijos, mas que ninguém jamais vira antes por ali, naquele bairro tranqüilo, muito menos em alta madrugada. Eram descritos como jovens e trajando preto. Por alguma razão desconhecida, ninguém teve coragem de lhes dirigir a palavra ou de sair a rua. As justificativas variavam, mas o medo que surgira de ambos, apesar de seu temperamento jovial, era invariável e, no fundo, inexplicável. Uma dona de casa, que esperava o marido voltar de uma reunião em sua empresa acordada diante da televisão, disse que ouvira a parte feminina do casal dizer uma frase na rua, a única parte inteligível de seu suposto diálogo que ficou registrada:

-Agora sei que você me ama… porque amar é libertar.

A isto seguiu-se um instante de silêncio solene e um suspiro da parte masculina, segundo alguns de temperamento mais sensível e imaginação mais fértil, um ruflar duplo de asas, desacompanhado de qualquer tipo de voz humana, encerrou por fim a cena que faziam na rua.

Depois disso, veio um silêncio que só foi efetivamente rompido alguns minutos depois pelas sirenes dos carros de bombeiros. Nenhum vestígio restara dos apaixonados e não fossem alguns mais desinibidos comentarem sua presença, ao sol da manhã todos os que os haviam percebido teriam acreditado que havia sido apenas um sonho individual, e com o tempo, seria esquecido.

Embora tenham sobrevivido como lenda e parte incompreensível de um crime insolúvel, ninguém nunca mais os viu pessoalmente.

Ou, se viu, calou-se para sempre.

Fim

NOTA: Depois de dois meses sem postar nada, me veio a idéia de colocar a disposição no blog mais um conto das antigas. Este trabalho em especial é muito querido por alguns leitores, mas por muito tempo tive medo de posta-lo. Os motivos é o seguinte: embora bem mais antigo do que determinado filme(ou franquia) de sucesso atual, uma olhada apressada poderia estabelecer uma comparação que me desagradaria, mesmo que o conto tenha sido escrito num período em que o mencionado filme ainda não existia sequer em forma de livro e tenha uma abordagem completamente diferente de determinado aspecto da narrativa que tem em comum. Então, se ser considerado plagiador de um trabalho que admiro já me deixaria incomodado, ser injustamente considerado plagiador de um trabalho que NÃO admiro seria duplamente incômodo. Apesar disso, motivos vieram para que eu decidisse finalmente arriscar e me submeter ao julgamento do público.

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Escravidão

Não é marxismo não, mas… Já pararam pra pensar que, embora com menos violencia que na Antiguidade, quase todos nós somos escravos? O homem comum, mesmo quando bem ajeitado economicamente, e mesmo quando gosta de seu emprego, não trabalha para enriquecimento pessoal ou realização de metas individuais. Ele o faz por uma questão de sobrevivência, então, de certa forma, não tem escolha. Alguém fica com os melhores frutos do que ele faz e, além disso, o trabalho custa a ele a liberdade de fazer o que quiser com seus dias. Como se não bastasse, ele precisa entregar uma parte do que teoricamente lhe caberia (impostos) para pessoas que criam regras para a sua vida que a limitam ainda mais. Ele não tem, e não vê possibilidade de ter, poder para interferir no mundo em que vive ou mudar essas regras. A realidade, mesmo a construida por homens, lhe é uma coisa estranha, que o recebe e da qual ele se despede, pronta e indiferente ao que ele sente ou pensa. No fim, a escolha e liberdade que nos resta é qual produto consumiremos e o único poder que podemos almejar é poder consumir mais.

É realmente muita, muita, muita, muita sorte que, sendo consciente disso, eu goste do que eu faço para viver. E eu gosto, na verdade, adoro.

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